Por Coelho Neto (1890)
Se a mãe o prendia ficava a fazer exercícios de capoeiragem no corredor, cantando dobrados, a gingar, como fazia à frente dos batalhões, com uma gíria sórdida e gestos desempenados. A velha, entanto, trazia a casa asseada. Ela própria, descalça, com as saias arregaçadas, os braços nus, esfregava o soalho; a negrinha, trepada em uma escada, lavava as vidraças. Vidinha cuidava da louça e trabalhava com disposição, contanto que, à tarde, à hora em que tirava os papelotes e vestia os seus casacos enfeitados, a mãe a deixasse debruçada à janela, muito lânguida e faceira, trocando sinais com um amanuense da vizinhança, moreno, de óculos, o rosto picado de bexigas. Tinha fama no quarteirão e, à noite, grupos de rapazes postavam-se na calçada fronteira e, escandalosamente, atiravam beijos, mas Vidinha, para não perder o amanuense, batia com a janela, numa indignação pudica e rompia em impropérios, às vezes atirava cusparadas desprezíveis, mandava o João correr à pedra os galanteadores ou chamava Dona Ana que surgia à sacada iracunda, mostrando vassouras, ameaçando desancar o bando, cobrindo-o de insultos vis e subia ao segundo andar, esbaforida e colérica, para pedir aos rapazes uma reclamação nos jornais contra aquela calaçaria para que um dia ela se não deitasse a perder, quebrando a pau a costela de um daqueles desavergonhados.
A vida entre os rapazes corria tranqüila e farta. As refeições, a tempo e abundantes, eram gabadas sem reserva pelos inquilinos do segundo andar. Terrinas imensas de sopa, pratarrazes de carne: o arroz sempre corado, subia num alguidar; o assado era uma posta solene e ainda verdejavam saladas e frutas. O café recendente era saboreado no mirante, à fresca.
Era Leonor quem servia à mesa muito delambida, fugindo aos beliscões, posto que andasse sempre a esfregar nos rapazes o seu corpo magro de efebo, tresandando à cozinha. Ao menor aceno, porém, ameaçava:
— Não brinca! Eu me queixo ao juiz de orfe... Veja lá... E saía, com uma pilha de pratos, chuchurreando muxoxos.
Podia-se trabalhar folgadamente posto que, à distância de alguns passos, noite e dia, andassem locomotivas em manobra: trens que chegavam, trens que partiam e as velhas máquinas manobreiras, como cuidadosas donas de casa, indo e vindo, esbaforidas, dispondo os comboios que deviam subir para os subúrbios ou, em mais estirada corrida, para além das serras.
Carroções enormes, carregados, passavam pela rua rangendo, aos solavancos sobre as pedras mal dispostas; às vezes caíam em covas, as rodas chafurdavam, ficavam engasgadas nos buracos e os cocheiros, saltando das boléias, frenéticos, bradando, atiravam chicotadas aos animais que, sangrando, aos arrancos, tentavam safar o veículo sobrecarregado enquanto homens aos urros, agarrados aos raios das rodas, ajudavam com esforço.
Ao lado, numa oficina de carros, ressoavam malhos. Em frente, certa menina ruiva e vesga, muito serelepe, da manhã à noite martirizava inexoravelmente um piano fanho. Eram pregões de quitandeiros, alarido de mulheres e burburinho de farândolas. Por vezes gritos intercedestes confirmavam as atoardas de um crime: história de uma louca que estortegava, esbravejava em fúria seqüestrada em cárcere privado.
À tarde o rumor crescia: trens corriam abarrotados, caminhões vazios iam aos trancos, com estridor de ferragens; bondinhos passavam cheios. Os rapazes refugiavam-se no mirante e, sob a doçura do céu azul, onde a luz esmaecia, fumavam, conversavam, espairecendo os olhos por aqueles telhados vermelhos, vendo, à distância, a massa de verdura do parque da Aclamação, o grande quadrilátero do quartel e torres de igrejas, o zimbório da Candelária e os morros esmaltados de casas, alvas no verdor do arvoredo denso.
Aqui, ali, à derradeira irradiação do sol, uma clarabóia cintilava. Baixando os olhos, viam os quintais com os coradouros coalhados de roupa, cordas vergando, outras atesadas por bambus e, quase por baixo do mirante, o pátio da oficina de carroças, cheio de toros de madeira, rodas em pilhas, um banco de marceneiro sob uma coberta de zinco.
Sons vibrantes de cometas, às vezes de marchas e dobrados, vinham de longe na doçura da tarde. Apareciam estrelas, luzes apontavam nas ruas. A noite caía rápida, e a cidade iluminada resplandecia como uma vasta planície crivada de vaga-lumes.
Recolhiam-se. Só o Toledo ficava muito triste, à noite triste, cantando baixinho, com melancolia, o olhar perdido em cismas. Saíam para os teatros, para a palestra no Garnier ou no Deroche ou ficavam à vontade falando do futuro, formando planos literários — um grande livro de Arte que despertasse a indiferença do público mazorro, uma obra forte, feita com amor e talento, a forma muito trabalhada, a análise muito minuciosa; um livro magistral de estilo que passasse o oceano e fosse ao estrangeiro dizer da Pátria e dos seus artistas.
Ruy Vaz, porém, tinha, por vezes, grandes desalentos: entendia que a língua portuguesa era um cárcere.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.