Por Raul Pompéia (1880)
— Pois bem, gaguejou o chefe dos espanhóis, meio desconcertado e olhando de modo estranho para os patrícios que riam-se, do que encontrarmos vocês terão uma parte.
— Está dito! disseram aos ladrões do Equador os assassinos do Brasil, está dito! Somos companheiros.
Assim celebrou-se a aliança entre as duas quadrilhas.
Exatamente quando nas florestas se tramava a sua perda, o honrado esposo de Branca, julgando-se em segurança, entregava-se as suaves alegrias domésticas.
Os bandidos deixaram passar-se algum tempo antes de tomarem uma resolução definitiva. Esperavam uma ocasião em que pudessem surpreender facilmente, a família de Eustáquio. Entretanto alguns espiões vigiavam-lhe a casa, de dia e de noite.
Um desses espiões apresentou-se uma vez ao chefe dos espanhóis, que pouco a pouco se fizera chefe de todo o bando, e lhe disse:
— Quase sempre, pela manhã eu vejo uma moça e uma menina que saem da casa do nosso amigo e vão passear, ou pela picada, ou pelo campo... Poderei eu dar-lhes algum tiro?
O espião, que era um negro, fez essa pergunta sem mais emoção do que sentiria se estivesse pedindo permissão para matar um pássaro.
— Nada, nada! respondeu-lhe o chefe. Vou dizer-te o que tens a fazer.
"Quando vires essa moça e essa menina, tomarás a tua faca... faca, repara bem... Nada de tiros barulhentos...
"Tomarás a tua faca e darás cabo da moça. Quanto à menina, tu hás de agarrá-la e trazer-ma. Estás ouvindo?"
— Trazer para que? perguntou o negro, encarando de modo singular o seu chefe.
— Para... Não é da tua conta!
— Ora, que esquisitice! Trazer aquele mosquitinho miúdo para o senhor!
— Não faças observações! gritou o chefe. Hás de trazer-ma! Entendes? É o que ordeno.
— Bem, custa pouco. Amanhã mesmo a menina estará aqui.
Apenas o negro acabou de fazer esta promessa, uma risada irônica ressoou por trás de um agrupamento de arbustos.
O espanhol ouviu-a, julgou, porém, que fosse a gargalhada de algum dós seus companheiros, que conversavam a pouca distância dele.
No dia imediato ao desse colóquio Branca e Rosalina foram assaltadas na picada e, como já referimos, salvas por um braço oculto.
Quando deram-lhe a notícia da morte do negro encarregado de arrebatar a protegida de Eustáquio, o chefe da quadrilha fez apenas com os ombros um movimento que dizia:
— Que me importa?
Depois acrescentou:
— Poltrão! Deixou-se matar por uma mulher!
Acreditava que tivesse sido Branca a autora da morte.
O bandido não possuía a virtude de Fábio. Conhecendo porém que o perigo de que Branca e Rosalina haviam escapado devia ter despertado a vigilância de Eustáquio, adiou a luta que pretendia desde logo romper. Tratou contudo de ativar as disposições para ela.
Mandou mudar o acampamento do seu bando para um lugar menos afastado do alvo dos seus desígnios.
Nesse novo acampamento reconheceram os bandidos que, espiavam a morada de Eustáquio, e eram por seu turno espiados.
Por quem? Esta pergunta faziam eles a si, sem encontrar resposta.
Tinham por vezes descoberto pegadas na lama, e nos galhos sinais patentes de que uma pessoa estivera sobre eles. Tinham até lobrigado ao clarão da lua um vulto fugitivo, que inutilmente perseguiam. Não passava porém disso o conhecimento que tinham de quem os espreitava. Estavam entretanto convencidos de que o espião não era pessoa da família de Eustáquio, pois que, nas noutes em que avistavam a sombra fugitiva, ninguém saíra da casa do perseguido, como afirmavam os negros que a vigiavam constantemente.
Além do que, sempre que os malfeitores iam no encalço de tal sombra, viam-na refugiar-se na povoação.
Passaram-se duas semanas depois da tentativa de que Branca e Rosalina foram vítimas. O chefe dos malfeitores julgava que era já tempo de realizar os crimes que lhe ferviam na imaginação pervertida.
Reuniu, então, os companheiros, não para comunicar-lhes a resolução que tomara de atacar sem mais demora a casa de Eustáquio, porque já o fizera dias antes, mas para dizer-lhes o que cumpria cada um fazer.
O bandido apresentou-se diante dos seus subordinados com ar inquieto. Havia notado que entre eles não estava um espanhol em quem não depositava confiança e que sempre recalcitrara às suas determinações.
A ausência desse homem não lhe era desagradável, supunha porém que o recalcitrante não aparecendo tinha alguma intenção que ele não conhecia. Por essa razão, as primeiras palavras que dirigiu aos malfeitores foram para perguntar se algum deles sabia qual o motivo por que não estava presente o tal espanhol.
À interrogação ninguém respondeu. Três negros porém abaixaram os olhos e não conseguiram mais levantá-los.
O chefe repetiu a pergunta, lançando a esses três negros olhares furibundos.
Os miseráveis tremeram e quase desfaleceram quando nessa ocasião ouviram a voz de um dos outros negros.
— Eu, se o senhor m'o consente, dizia ele com timidez humilde, posso...
Os três bandidos que pareciam réus perante o juiz quiseram prostrar-se aos pés do que falava e rogar-lhe que se calasse, o chefe porém bradou-lhe:
— Não se movam!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. Uma tragédia no Amazonas. Rio de Janeiro: Typ. Cosmopolita, 1880. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17442 . Acesso em: 6 abr. 2026.