Por Raul Pompéia (1888)
Por um dia de muito calor, acabava ele de enunciar como um padre uma página de religião, os diversos atos de Contrição, de Atrição, de Fé, de Esperança, de Caridade, quando propôs que eu lhos repetisse sentado aos seus joelhos. Achei inútil a comodidade e repeti a lição passeando pela sala. Que diabo! Aquele sujeito queria tratar-me definitivamente como um bebê! Com pouco mais lhe daria o excesso de extremos para me oferecer uma volta de cueiros! Ah! que se ainda me vivesse no animo a bravura audaz que trouxera de casa, sem dúvida nenhuma há muito tempo que eu tinha despachado o Sanches com a cartilha pelas ventas. Mas eu era outro, e a vontade vegetava tenra e dúctil como um renovo, depois do aniquilamento da primeira decepção. Fui transferindo o conflito.
Às vezes a minha resistência passiva desapontava o preceptor. Ele encaravame terrível, e como quem diz: “perde a proteção de um vigilante!”, ou disfarçava a impertinência em riso amarelo, numa abstrata expressão de fisionomia, que era aliás o fácies de uma idéia fixa.
Os exercícios corporais efetuavam-se à tarde, uma hora depois do jantar, hora excelente, que habituava a digestão a segurar-se no estômago e não escorrer pela goela quando os estudantes se balançavam à barra fixa, pelas curvas.
Reconheci o belo campo das manobras quando lá fui pela primeira vez, depois da matricula; tive saudade das flâmulas sobre o gramal verde. Mesmo, porém, desmontada a alegria de encomenda das festas, era um sitio ameníssimo o campo. Descoberto a todo o céu, parecia mais abundante de ar; eu lá vingava os pulmões da compressão cerrada do regime interno.
Findos os exercícios, partia o Professor Bataillard, e, guardados por dois inspetores, o Silvino e o João Numa ou João Numa e o velho Margal, venerando inválido espanhol querido de todos, ou o Margal e o Conselheiro tínhamos, os alunos, um prazo de recreio até cair a noite.
Uma vez, ao escurecer, passeando eu calado, com o Sanches igualmente, vendo escapar o dia para além das montanhas, percebi que o meu companheiro balbuciava uma pergunta. Falou desatento, admirando o crepúsculo com a testa franzida, na meia abstração que era o seu ricto costumeiro. Estávamos a um rodeio da avenida que circundava o gramal, oposto à cancela onde conversavam os inspetores. Os colegas jogavam barra através da grama, ou se divertiam ao saut-demouton em pontos afastados. Como não apreendi a pergunta, o Sanches repetiu. Escapou-me involuntário o riso... Abarbava-me a mais rara espécie de pretendente!
Eu ria com franqueza, mas abismado. Era de uma extravagância original aquele Sanches! Hoje, ele é engenheiro em uma estrada de ferro do sul, um grave engenheiro...
Vendo que não nos podíamos entender, meteu entre nós o esplendor da tarde, e resolvemos o embaraço concordando ambos num parecer unânime a respeito.
Durante os dias que se seguiram, Sanches esteve frio. Tive medo de perdêlo. Deu-me as lições sem uma só das intragáveis ternuras. Exprimia-se brevemente, entre enfezado e triste. Suspeitei uma revolução de caráter e julguei ter achado o que me convinha: um amigo moderado, que me livrasse dos vexames da vida colegial dos pequenos. O caso era outro. Sanches compreendera que a ingenuidade tinha contraminado os zelos do seu ensino. Manobrava, então, para voltar à carga. Entretanto, deu-se o cuidado de insistir na preparação edificante.
Inventou uma análise dos Lusíadas, livro de exame, cuja dificuldade não cessava de encarecer.
Guiou-me ao canto nono, como a uma rua suspeita. Eu gozava criminosamente o sobressalto dos inesperados. Mentor levou-me por diante das estrofes, rasgando na face nobre do poema perspectivas de bordel a fumegar alfazema. Bárbaro! Havia um trajo de modéstia sobre a verdade do vocábulo; ele rasgava as túnicas de alto a baixo, grosseiramente. Fazia do meneio grácil de cada verso uma brutalidade ofensiva. Eu acompanhava-o sem remorso; reputava-me vagamente vitima, e me dava à crueldade, submisso, adormecido na vantagem da passividade. A análise aguilhoava as rimas; as rimas passavam, deixando a lembrança de um requebro impudente. E o ar severo do Sanches imperturbável.
Tomava cada período, cada oração, altamente, com o ademã sisudo do anatomista: sujeito, verbo, complementos, orações subordinadas; depois o significado, zás! um corte de escalpelo, e a frase rolava morta, repugnante, desentranhando-se em podridões infectas.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. O Ateneu. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17440 . Acesso em: 6 abr. 2026.