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#Contos#Literatura Brasileira

As joias da Coroa

Por Raul Pompéia (1882)

O mordomo ofereceu cadeiras ao marquês e ao sr. Louro Trigueiro e conservou-se respeitosamente de pé.

O marquês sentou-se e cravou os cotovelos nos joelhos, apertando a cabeça entre as mãos. Nesta posição conservou-se imóvel.

O chefe de polícia, depois de refletir alguns momentos, olhou para o mordomo, e, com uma toada de inquisidor, perguntou:

— Quem é o encarregado de guardar as jóias do sr. duque?

— É o seu particular...

— Onde são guardadas as jóias?

— As jóias da coroa guardam-se numa burra. Quando, porém, o particular não vai guardá-las, à burra, são depositadas provisoriamente naquele armário, que é lugar seguro; porque, a não ser em caso extraordinário, só pessoas de confiança têm estrada nesta sala...

— Que pessoas de confiança?...

— O particular, o criado Inácio ou o Joaquim que varrem e espanam o palácio...

— São estes criados os encarregados do fechamento das janelas... não é assim?

— Sim, senhor.

— Bem... Agora, diga-me: quem foi que guardou no armário, ontem à noite, as jóias do sr. duque?...

— Foi um criado de muita confiança a quem, por estar com o amo em casa do sr. marquês de ***, o sr. duque entregou as jóias e mandou...

— Este criado entregou as jóias ao particular?

— Não, senhor. O particular tinha saído do palácio, o criado entrou e depositou, segundo o costume, as jóias no armário...

O mordomo não sabia se era exato aquilo que estava dizendo, mas, como não queria manifestar descuido de suas obrigações, improvisava conforme o mais provável. Involuntariamente dizia a verdade.

— Pelas suas supostas — disse o chefe de polícia, respirando largamente —, eu descubro quatro pessoas responsáveis pelo crime...

O mordomo arregalou os olhos e ficou pálido. Imaginou-se no número de responsáveis.

— Em primeiro lugar — enumerou o Dr. Louro —, o criado que guardou as jóias no armário, sem prevenir ao particular; depois, o particular que devia estar no palácio para receber as jóias; em terceiro lugar, os dois criado que deviam ser mais zelosos para que não ficassem janelas abertas.

O mordomo, muito satisfeito por não ter sido incluído no rol dos responsáveis, perguntou apressadamente ao chefe de polícia:

— V. Exa. quer que eu chame essa gente?...

— Homem... eu hei de interrogá-los, mas desejo primeiro conversar com o sr.

duque; contudo parece-me que não seria mau trocar algumas palavras com o criado que trouxe as jóias...

— Agora não é possível... O criado voltou à casa do marquês de ***...

— Deve, portanto, chegar daqui a pouco com o sr. duque...

— Infalivelmente.

— ... Eu esperarei pelo sr. duque — terminou o chefe de polícia.

— Ah! o meu anel! — suspirou o marquês na sua cadeira.

— Havemos de encontrá-lo, sr. marquês — disse o mordomo.

Nessa ocasião levantou-se o reposteiro de uma das portas da sala, em um criado de libré apresentou-se anunciando:

— Está servido o café.

CAPÍTULO IX

No movimento que abalou a aldeola situada nos terrenos da quinta quando espalhou-se a notícia do roubo do palácio não tomaram parte os moradores daquela casinha do fim do beco, onde já esteve conosco o leitor.

Apenas a velha mulher de Januário esticara o comprido pescoço rugoso por uma janela, para ver qual a causa de tanto falatório, e a jovem Conceição perguntara a uma companheira o que tinha sucedido.

Logo que tiveram uma vaga informação do sucesso contentaram-se com isso. Havia em casa motivo de maior preocupação para eles do que em todos os tumultos de fora.

Era o caso que naquela manhã aparecera gravemente enferma a nora de Januário.

A pobre Emília padecia uma enfermidade que desde muitos anos aniquilava-a lentamente.

Além da moléstia, uma dor violentíssima atormentava-lhe o íntimo d’alma. A razão deste sofrimento era um mistério.

Tinham-na visto, um dia, os mais antigos moradores da aldeia, aparecer casada com um criado do duque de Bragantina.

Já era aquela mulher triste e doentia.

Os anos que rodaram dessa época até os dias da nossa narrativa não lhe furtaram mais que os últimos vestígios de beleza e mocidade que ela trouxera.

Emília passava a existência mergulhada num eterno desgosto.

Tinha, às vezes, uns sorrisos que entristeciam a quem os visse.

Outras vezes, sem motivo aparente, cresciam-lhe as lágrimas nos olhos, e a pobre Emília chorava como uma louca.

Acontecia isto, em geral, quando ela fitava a Conceição, a rir infantilmente por qualquer coisa, ou a trabalhar muito animada na tarefa de crochet que lhe marcava a madrinha.

Assim que Conceição percebia que estavam olhando para ela, Emília voltava o rosto e disfarçava.

Na casa de Januário, pouca atenção davam ordinariamente a Emília. O desespero com que ela se atirava ao trabalho fazia com que a fossem considerando a criada da casa; e, como criada, tratavam-na. Emília não reparava. Demais, que importava isso à viúva de um criado?...

Como tratavam bem ao seu filhinho e Conceição, de quem gostava muito, Emília aturava todos os desprezos com uma indiferença dolorosa, sem reações.

Foi, por isso, extraordinário o movimento de furor com que a vimos no princípio desta história acometer o velho Januário.

(continua...)

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