Por Raul Pompéia (1881)
- Não faça caso, balbuciou-me ela ao ouvido. É a minha filha... que sofre de asma...
Pouco adiante, uma porta de vidraças vagamente clareada fez-me deter o passo. Um homem escarrou.
- Não faça caso, segredou-me a velha... Meu neto dorme aqui com a mulher...
Adiante ainda rangeu manhosamente o choro de um menino.
- Não faça caso... É o meu bisnetinho...
Outra criança rompeu em choro para acompanhar a primeira.
A velha não me disse se era o tetraneto...
Pois, senhores, fala-se em juventude... primavera... primavera... fala-se em verão... Não acreditem, meus amigos, não acreditem no inverno.
Raul Pompéia
ANTES E DEPOIS
O salão entornava luz pelas janelas. No sofá, bocejava a boa gorducha d. Maria, digerindo sonolentamente o quilo do jantar. O seu digno consorte, o desembargador, apreciava o fresco da noite à janela, sugando com ruído a fumaça de um havana, com os olhos nos astros e as mãos nas algibeiras. Perto do piano, arrulavam à meia-voz Belmiro e Clara... Já se sabe: dois pombinhos...
O Belmiro estudava; tinha futuro, portanto; Clara... tocava e cantava...
II
- Belmiro, disse o desembargador, atirando à rua a ponta do charuto, manda Clara cantar...
- Cante, d. Clara, pediu Belmiro.
Clara cantou... Cantou mesmo? Não sei. Mas as notas entraram melífluas pelos ouvidos de Belmiro e foram cair-lhe como açúcar no paladar do coração...
- Esplêndido! esplêndido! dizia ele, fazendo chegar a umidade do hálito à face rosada da meigaClarinha...
O desembargador olhava outra vez para os astros...
III
Rola o tempo...
Numa casinha modesta de S. Cristóvão, mora o dr. Belmiro com sua senhora d. Clara... Os vizinhos dizem cousas... ih!
IV
- Como vais, Belmiro?
- Mal!
- Mal?... disseram-me que te casaste com a tua Clarinha...
- Sim! sim!... mas, queres saber... de amor ninguém vive; é de feijões...
- Então...
- Devo até a roupa com que me cubro!...
- E o dote?
- Ah! ah! adeusinho...
V
É noite.
D. Clara está ao piano. Um vestido enxovalhado escorre-lhe da cintura abaixo, sem um enfeite. D. Clara está magra. No chão arrasta-se um pequenote de um ano, com uma camisolinha porca amarrada em nós sobre o cóccix.
Clara toca; e não canta, porque tem os olhos vermelhos e inflamados...
O dr. Belmiro vem da rua zangado.
- Não sei o que faz a senhora, gastando velas a atormentar-me!... Mande para o diabo as suas músicas e vá-se com elas!
A Comédia. São Paulo, no. 66, 21 maio 1931. (Da série "Uma história por dia".)
Raul Pompéia
AS FESTAS DE REIS DE MINHA PRIMA
Conheci muito o dr. Sinfrônio.
Nunca lhe achei cara de poeta... Pois ele o fora!
Uma única vez na vida, às escondidas, como se tivesse vergonha... Mas fora... Vim a sabê-lo, alguns anos depois da sua morte.
Não quero dizer que este póstumo achado lhe valha a glória. Poeta, é modo de escrever. São umas linhas execráveis, sem metrificação nem graça, em que bela rima à toa com janela ou com singela, como no "Era no outono..." de B.Pato...
São versos de paixão, espécie de carta de namoro a linhas curtas, começadas em letra maiúscula.
Mostrou-mos o filho, um velho amigo de colégio que me ficou da infância; mostrou-mos, fazendo considerações a propósito de certas ingenuidades que todos têm e certas fraquezas em que todos caem. Aquele homem prático, prosaico, impregnado de negócios do foro e alguma política rasteira, empírica de mais, sem horizontes largos, aquele burguês redondo tivera um dia de pieguice aguda na sua vida! Lá estava o corpo de delito, descoberto em meio duma aluvião de rascunhos de correspondências, contas, recibos, papelório forense, traças e poeira.
Era uma página da mocidade incontestavelmente.
O papel estava cor-de-palha e a letra extinta. Mas sentia-se ainda, naquele fragmento de papel, a frescura juvenil de uma alma ardente, embora um tanto avessa à música das liras.
Nada me entristece mais do que um verso apaixonado, e errado! Parece-me a pomba do sentimento, rolando no chão de asas e pés quebrados... Pés quebrados!
Ora, imaginem que pena - Cupido cambaio e trôpego!
Quando um homem furta-se aos afazeres positivos da vida e arroja-se ao cometimento de uma estrofe, certo de que não tem veia, nem teve apurada educação literária, contando apenas com um raio celestial de inspiração, guiando-se apenas pela bamba norma fundamental da letra grande, por princípio, linha curta, por base e rima alternada, por fim; quando um mortal faz isto, é que tem todas as vísceras escalavradas de paixão! O amor roeu-lhe já o coração fibra a fibra e começa a morder-lhe as células do cérebro. É um heroísmo que se enternece.
Respeito estas desventuras literárias, quando as descubro, principalmente percebendo que elas queriam ficar sempre escondidas na obscuridade tímida das fraquezas humanas.
No momento em que o meu velho amigo mostrou-me o pecado literário do pai, não foi preciso esforço, para eu conservar-me sério.
"Quando te vejo, ó gentil imagem...
Começava assim a poesia e prolongava-se pelo papel abaixo, exaltando os dotes da minha prima Isaura.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. 14 de julho na roça. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7632 . Acesso em: 6 abr. 2026.