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#Sermões#Retórica

Sermão da Terceira Dominga da Quaresma

Por Padre Antônio Vieira (1655)

Quando? Quando fazem os ministros o que fazem, e quando fazem o que devem fazer? Antigamente estavam os tribunais às portas das cidades: agora estão as cidades às portas dos tribunais. Efeitos terríveis das dilações no atender os requerimentos. Cristo e seu requerimento ao Pai no Horto das Oliveiras. O desengano, grande alívio para os não despachados.

Quando? Esta é a última circunstância do nosso exame. E quando acabaria eu se houvera de seguir até o cabo este quando? Quando fazem os ministros o que fazem, e quando fazem o que devem fazer? Quando respondem? Quando deferem? Quando despacham? Quando ouvem? Que até para uma audiência são necessários muitos quandos. Se fazer-se hoje o que se pudera fazer ontem, se fazer-se amanhã o que se devera fazer hoje, é matéria em um reino de tantos escrúpulos e de danos muitas vezes irremediáveis, aqueles quandos tão dilatados, aqueles quandos tão desatendidos, aqueles quandos tão eternos, quanto devem inquietar a consciência de quem tiver consciência?

Antigamente, na República Hebréia, e em muitas outras, os tribunais e os ministros estavam às portas das cidades. Isso quer dizer nos Provérbios: Nobilis in portis vir ejus, quando sederit cum senatoribus terrae.29 Para qualificar a nobreza do marido da mulher forte, diz que tinha assento nas portas com os senadores e conselheiros da terra. A isto aludiu também Cristo quando disse da Igreja que fundava em S. Pedro: Portae inferi non praevalebunt adversus eam (Mt. 16,18): Que as portas do inferno não prevaleceriam contra ela, – entendendo por portas do inferno os conselhos do inferno, porque os conselhos, os ministros, os tribunais, tudo costumava estar às portas das cidades. Mas que razão tiveram aqueles legisladores para situarem este lugar aos tribunais, e para porem às portas das cidades os seus ministros? Várias razões apontam os historiadores e políticos, mas a principal, em que todos convêm, era a brevidade do despacho. Vinha o lavrador, vinha o soldado, vinha o estrangeiro com a sua demanda, com a sua pretensão, com o seu requerimento, e sem entrar na cidade, voltava respondido no mesmo dia para sua casa. De sorte que estavam tão prontos aqueles ministros, que nem ainda dentro da cidade estavam, para que os requerentes não tivessem o trabalho, nem a despesa, nem a dilação de entrarem dentro. Não saibam os requerentes a diferença daquela era à nossa, para que se não lastimem mais. Antigamente estavam os ministros às portas das cidades; agora estão as cidades às portas dos ministros. Tanto coche, tanta liteira, tanto cavalo, que os de a pé não fazem conto, nem deles se faz conta. As portas, os pátios, as ruas rebentando de gente, e o ministro encantado, sem se saber se está em casa, ou se o há no mundo, sendo necessária muita valia só para alcançar de um criado a revelação deste mistério. Uns batem, outros não se atrevem a bater; todos a esperar, e todos a desesperar. Sai finalmente o ministro quatro horas depois do sol, aparece e desaparece de corrida, olham os requerentes para o céu, e uns para os outros, aparta-se desconsolada a cidade que esperava junta. E quando haverá outro quando? E que vivam e obrem com esta inumanidade homens que se confessam, quando procediam com tanta razão homens sem fé nem sacramentos? Aqueles ministros, ainda quando despachavam mal os seus requerentes, faziam-lhes três mercês: poupavam-lhes o tempo, poupavam-lhes o dinheiro, poupavam-lhes as passadas. Os nossos ministros, ainda quando vos despacham bem, fazem-vos os mesmos três danos: o do dinheiro, porque o gastais, o do tempo, porque o perdeis, o das passadas, porque as multiplicais. E estas passadas, e este tempo, e este dinheiro, quem os há de restituir? Quem há de restituir o dinheiro a quem gasta o dinheiro que não tem? Quem há de restituir as passadas a quem dá as passadas que não pode? Quem há de restituir o tempo a quem perde o tempo que havia mister? Oh! tempo tão precioso e tão perdido! Dilata o julgador oito meses a demanda, que se pudera concluir em oito dias; dilata o ministro oito anos o requerimento, que se devera acabar em oito horas. E o sangue do soldado, as lágrimas do órfão, a pobreza da viúva, a aflição, a confusão, a desesperação de tantos miseráveis? Cristo disse que o que se faz a estes, se faz a ele. E em ninguém melhor que nele se podem ver os efeitos terríveis de uma dilação.

(continua...)

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