Por Lima Barreto (1909)
Não disse a resposta com naturalidade, esforcei-me por fazê-la polida e amável, e saiu-me por isso completamente desajeitada. Sempre fui assim diante das senhoras, qualquer que seja a sua condição; desde que as veja num ambiente de sala, são todas para mim marquesas e grandes damas. E um sentimento perfeitamente imbecil, de que até hoje não me pude libertar. Certa ocasiào mesmo fui por isso de um ridículo sem nome. Gregoróvitch ceava comigo num restaurante da moda. Era da meia-noite para uma hora; a sala estava cheia de raparigas de vida airada. Tendo esbarrado a minha cadeira na de uma delas, pedi com grande humildade cortesã: — Desculpe-me Vossa Excelência. A mulher, uma grande espanhola cheia de rugas e pó-de-arroz, olhou-me cheia de raiva e desandou-me uma descompostura julgando que eu a troçava. Gregoróvitch, porém, interveio e deu-lhe explicações cabais na sua língua de origem. Ela riu-se muito, contou à companheira e em breve a sala toda me olhava, com uma risota nos lábios.
Diante daquela mulher, na casa particular do deputado, cuja situação nela era fácil de descobrir, eu fiquei nessa atitude de menino tímido que me invade, sempre que estou em presença de mulheres, numa sala qualquer. Não lhe falei; não pude provocar a palestra; ela fatigou-se de olhar, levantou-se desculpando-se: — “O senhor há de me desculpar... Tenho que fazer, vou até lá dentro e o doutor não há de tardar”.
Ainda hoje, depois de tantos anos de desgostos dessa relação continua pela minha luta intima, precocemente velho pelo entrechoque de forças da minha imaginação desencontrada, desproporcionada e monstruosa, lembro-me — com que saudade! com que frenesi! — do inebriamento que essa mulher deu aos meus sentidos, com o seu perfume violentamente sexual, acre e estonteante, espécie de requeime das especiarias das Índias... Ergueu-se e foi lentamente pelo corredor em fora; e eu segui com o olhar a sua nuca tentadora com tonalidade de bronze novo.
Eu conhecia a legitima esposa do Castro. Que diferença! Era quase uma velha encarquilhada, cheia de pelancas e fatuidade...
Quando perdi de vista a moça pus-me a reparar na sala, com umas oleogravuras sentimentais e uns bibelots de pacotilha. Demorei me assim uma meia hora; por fim, o homem veio. Entreguei-lhe a carta. Leu a num instante, tendo na testa uma ruga de aborrecimento; depois perguntou me:
— É o senhor?
— Sim senhor.
— Você (mudou logo de tratamento) sabe perfeitamente como as coisas vão: o pais está em crise, em apuros financeiros, estão extinguindo repartições, cortando despesas; é difícil arranjar qualquer coisa; entretanto...
— Mas doutor eu não queria grande coisa... Cem mil-réis por mês me bastava... Todos por ai arranjam e eu...
— Sim... Sim... Mas têm grandes recomendações, poderosos padrinhos — eu, o que valho? nada! Ainda agora o Ministro do Interior não nomeou o meu candidato para juiz do júri...
— Se Vossa Excelência quisesse...
— Você por que não faz concurso?
— Não posso, não os há anunciados e eu preciso qualquer coisa já...
E assim fomos conversando: ele falsamente paternal e eu, a medida que o diálogo se prolongava, caloroso e eloqüente. Houve ocasião em que ele exprobrou essa nossa mania de empregos e doutorado, citando os ingleses e os americanos. — Todo o mundo quer ser doutor... Corei indignado e respondi com alguma lógica, que me era impossível romper com ela; se os fortes e aparentados, os relacionados para a formatura apelavam, como havia eu, mesquinho, semi-aceito, de fazer exceção? Recomendou-me que o procurasse no escritório, que havia de ver...
Se bem que me tivesse acolhido com polidez, senti que o coronel nada decidia no animo do deputado. Julguei que mais do que pela carta o seu acolhimento fora ditado por uma frouxidão de caráter, por certa preguiça de vontade e desejo de mentir a si mesmo. A sua fisionomia empastada, o seu olhar morto e a sua economia de movimentos deram-me essa impressão. Demais aquela ruga na testa quando deu comigo...
No bonde, comprei um jornal. O veículo ia se enchendo: meninas da Escola Normal, cheias de livros, de lápis e réguas; funcionários de roupas surradas; pequenos militares com uniformes desbotados...
Conversavam; discutiam os casos políticos e os de polícia, enquanto eu lia. Num dado momento, na segunda página, dei com esta noticia: “Parte hoje para São Paulo, onde vai estudar a cultura do café, o doutor H. de Castro Pedreira, deputado federal. Sua Excelência demorar-se-á...”
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1865 . Acesso em: 8 maio 2026.