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#Crônicas#Literatura Brasileira

A Descoberta da Índia

Por Coelho Neto (1898)

E, como terminassem a falia, dois negros, com marlotas e barretes de seda, á cinta adágas curvas, subiram com presentes de fructas e, pondo-se de joelhos, offereceram ao Gama, com um gesto tão cortez e tão gracioso que o secco navegador sorrio agradecendo.

Em resposta disse o capitão quem era e porque andava por aquelles mares, entre tormentas, traições, syrtes e marraxos, enaltecendo subidamente o poderio do seu Rei e a grandeza da sua Pátria, rica e forte. E, em troca dos presentes que recebera, outros mandou á terra pelos embaixadores constando de varias peças de vestuario, alambeis e ramos de coral.

No dia seguinte, ao luzir d'alva, largaram os navios de onde estavam para que mais proximos ficassem do porto e alli mandou o rei nova embaixada a bordo, com presentes e instancias para que desembarcassem indo os nautas repousar em terra mas o Gama, advertido pela experiencia que tinha das demonstrações fallazes de amizade que lhe haviam dado os outros regulos, negou-se, desconfiado, dizendo que trazia do seu Rei prohibição expressa de deixar o seu posto em os navios em outro porto que não aquelle que ia procurando, e, se contrariamente procedesse, falhando á disciplina, abriria um perigoso precedente á gente que commandava.

Resolveu então que, saindo o rei em um dos seus barcos, sairia elle em outro, encontrando continuasse dos seus barcos, sairia elle em outro encontrando-se sobre as aguas. No dia ajustado para a entrevista, desde cedo, começou a gente a mover-se na praia com alvoroço: cavalleiros, com os mantos ao vento, traziam os seus ginetes caracolando; ao fulgor do sol áscuas scintillavam nos ferros das lanças e os muros brancos das casas refulgiam destacando-se vivamente, em largas manchas, entre os pomares cerrados; altas, esguias, com os seus pennachos verdes, perdiam-se ao longe as columnadas das palmeiras.

O Gama, querendo mostrar-se com esplendor, mandou adornar o seu batel forrando-o de estofos; um brocado, com precioso cadilho de ouro, alastrava o paneiro protegido por um toldo de seda com franjas e, sob o toldo, n'um assento de finos embutidos e marchetes de ouro e coral ia elle, entre os seus officiaes, vestidos com louçaina; os mesmos remeiros ostentavam os seus trajos a primor e tanto era o fausto que os estropos que prendiam os remos aos toletes eram de fina seda e, por ostentoso luxo, as abas dos forros, rolando das bordas do batel, iam roçando n'agua - e, com a bandeira real desfraldada á popa e galhardetes nas driças foi-se o batel affastando com o estridor das trombetas que os de bordo assopravam alegremente.

Já de terra partira o monarcha melindano n'uma almadia de graciosa fôrma e ornada custosamente. Vestia o rei uma ampla cabaia de damasco forrada de setim verde e á cabeça trazia a fóta de sêda com torsaes de ouro e arrecadas de perolas que com o fino estofo se embrechavam.

O peito, como se do peso se sentisse, arfava sob um collar ou tosão cravejado de pedras preciosas e, tão longo era que, dando duas voltas folgadas ao pescoço, lhe descia á altura da cinta ; os dedos pareciam ser de ouro e de gemmas tantos eram os anneis que por elles se enrascavam.

Reclinado sobre molles e amplos coxins de sêda ficava á sombra d’um flabello carmesi, cuja hasteauxiva um negro sustentava. De pé, com as brancas barbas soltas destacando-se da tez abaçanada do seu rosto onde os olhos brilhavam, um velho aio, de aspecto venerando, sustentava-lhe o alfange, resguardado numa bainha de prata e, á proa, dois alentados mouros embocando bozinas altas, de marfim, sopravam para o mar forte e sonoroSamente, outros tocavam anafis e, como guardas reaes, fidalgos apertavam um circulo

deslumbrante em torno do soberano. Alcançando o batei do Gama onde a equipagem mantinha os remos arvorados passou-se para elle o rei e, taes demonstrações alli trocaram os dois que mais pareciam amigos que se reviam depois de longo apartamento que dois homens que se encontravam pela primeira vez.

Gomo para conservar o nome grato e amigo do Rei de Portugal pedio ao Gama que lh'o desse escripto e, depois, ainda instou com elle para que fosse á terra onde teria acceitoso descanso e regalo pittoresco n'aquelles eidos que mandavam, de tao longe, o seu perfume ao mar, na brisa.

(continua...)

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