Por Coelho Neto (1924)
Longe, todavia está o sol e aclara-nos; longe estão os demais astros, e vemo-los. Só tu não nos dás sinal de ti a não ser pela saudade em que te transformaste e que não nos deixa, tão viva em nós que eu, às vezes, tenho medo de que te estejamos a prender conosco, privando-te do Paraíso, encarcerado, como te trazemos, em nossos corações.
Mas se deles saíres que nos ficará neste mundo, perdida a única consolação que nos resta, que é a tua, lembrança?
Vive, vive em nós, no mais íntimo da nossa alma: vive na saudade como antes vivias, em esperança, no mais profundo do nosso amor.
VISITA
A súbitas, sem causa, constringe-se-me o coração. Enche-se-me o peito de ânsia. Trava-se-me a respiração em angústia asfixiante.
Abre-se-me um hiato na existência como se fendem abismos na terra quando a convulsionam cataclismos.
Deve ser assim o morrer, o instante em que a alma, soltos os liames que a retém ao corpo, emerge em surto demandando o espaço para ascender ao céu, liberta.
O que se passa em mim em tais momentos lembra-se essas bolhas de ar que afluem na profundeza dos lagos e, mal chegam à tona, dissolvem-se integrando-se na atmosfera.
Sinto que alguma coisa se desprende do meu ser, como se desprende uma pétala da flor.
Arrasam-se-me os olhos de água e o coração, em sobressalto, precipita as pancadas.
És tu que passas por mim. És tu que me fazes vibrar de comoção. És tu que me atravessas instantaneamente a memória como um pássaro, em vôo de frecha, corta, alígero, o espaço. Pássaros...! E que são as saudades senão aves de arribação? Ao invés, porém das andorinhas, que, a maneira dos heliantos, andam sempre procurando o sol e, as primeiras brumas, reunidas em caravanas, partem, céus em flora, em busca de climas tropicais, elas emigram no estio e é justamente no inverno que nos chegam.
Coração alegre não lhes serve: gostam de fazer os ninhos à sombra da melancolia e aí vivem e procriam.
No mais rigoroso da tristeza, quando as lágrimas são mais copiosas, levantam-se em revoadas e escurecem e entristecem ainda mais o que, já de si, é lúgubre: o coração magoado. Se no momento, tais evocações excruciam-me, deixam-me depois a alma aliviada, como certos bálsamos que, no instante em que são aplicados às feridas, exacerbam-lhes as dores para as lenirem depois!
E por que assim se converte a angústia em conforto? Porque, por ela, me convenço da tua sobrevivência.
Se tornas, posto que só em espírito, é porque existes.
O nada não se levanta, não atende, não se manifesta. E tu surges, vens a mim, anuncias-te presente, ainda que invisível.
Caminhando ao longo do silvedo eis que nos chega um aroma. Senti-lo e logo saber que flor o exala é tudo um instante. E a flor ? Onde? Escondida na balsa, oculta nas frontes ou refolhada nos aningais do lago, algures, invisível, mas presente.
É o que se dá quando meu coração se retranse de saudade. Entristeço-me, logo, porém, consolo-me sentindo-te.
Melhor seria que eu te visse, que vivesses conosco. Mas o maior tormento, depois que te partiste, era imaginarmos que te havíamos perdido para o sempre. Não!
Estás longe, mas existes, não desapareceste porque o essencial de ti a parte eterna do que foste, vive.
O que lá está, na terra, é o casulo: a borboleta voa livre, na luz, e, de quando em quando, saudosa, baixa do céu à terra e pousa de leve em nossos corações.
TEMPESTADE
Noite lúgubre.
Estortegam-se agoniadamente as árvores ao vento. Bátegas rufam nas telhas. Por entre as frinchas das janelas afuzilam clarões.
Rápido esfria em regelo. À rajada mais forte o arvorado rumoreja estabanadamente. A enxurrada chofra, gorgoleja torrencial, rasgada, de quando em quando, por automóveis que passam.
Troam, estrepitam, ribombam trovões.
No bater das portas e das janelas tem-se a impressão de que andam a forçar a casa.
Acendem-se luzes. São as crianças que despertaram sobressaltadas com os fragores.
A estampido mais rijo ei-las de pé, espavoridas. Correm a refugiar-se junto a nós.
E o estridor aumenta.
Deflagram explosões seguindo-se-lhes silêncio pávido.
De repente a chuva jorra cheia e grossa estalando na rua.
O vento uiva rondando o espaço; distancia-se, torna, envolve a casa como matilha que se encarniça furiosamente em presa.
Luzem relâmpagos mais freqüentes. A própria luz das lâmpadas vasqueja, freme em crispações de espamo e, a súbitas, apaga-se.
E a escuridão, que amedronta, laiva-se de livores convulsos.
Penso nos que se acham lá fora, à intempérie. Quantos!
Penso em ti!
Sentirás no teu túmulo o rigor da tormenta? Não creio.
Se tal se desse com mais razão terias sentido a que se desencadeou em nossos corações quando, com a respiração já flébil, nos arquejos dos últimos anélitos, tinhas em nós os olhos fitos e marejados de água.
Nada sentias - nem os soluços, nem as deprecações, nem as vozes desesperadas com que, através de lágrimas, bradávamos para que não partisses.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)COELHO NETO, Henrique Maximiano. Mano. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7528 . Acesso em: 7 abr. 2026.