Por Coelho Neto (1906)
"Muitas vezes vosmecê lê nos jamais que um homem enfiou uma língua de ferro no bucho do outro, à toa. À toa?! pois sim, trate de indagar e há de ver. Só um maluco mata por matar, há sempre uma razão. Eu mesmo já tenho estado para esfriar mais de um, por causa de desaforos, não com a Ritinha, qu'isso, então, era logo; por causa de outras coisas. Foi algum vagabundo que virou a cabeça de Nhá Violante, mocinha nova, sem experiência do mundo... — Suspirou: Eu, de quem tenho mais pena é da velha... Tão boa, coitada! Uma santa!"
— Passou toda noite em claro, chorando.
— Imagino! Eu sei como ela é para vosmecês! Eh! quando um dos filhos tinha qualquer coisa, uma febrinha de nada... Nossa Senhora! ficava que até fazia pena, quanto mais com isso agora. Eu nem sei, coitada!
Paulo pôs-se de pé.
— Então estamos ajustados? Vais trabalhar?
— Hoje mesmo, já não cuido de outra coisa. Vá vosmecê tocando de cima qu'eu espero cá embaixo.
— Achas que devo voltar à polícia?
— Acho. Vosmecê não conhece algum delegado?
— Não.
— Mas isso é fácil. Vosmecê arranja um cartão lá no jornal e vai mesmo ao chefe. E deixe correr o barco. — Ritinha, já íntima, entrou com a garrafa e dois cálices. Mamede, porém, foi logo dizendo: Nhozinho não bebe, — e serviu-se, pigarreando grosso, com o cálice entre os dedos. Virou de um trago, caramunhando, olhos semicerrados.
— Então até logo, Mamede. Ainda vou dar uns passos por aí.
O mulato deu um safanão às calças:
— Pois é: vosmecê faz por seu lado qu'eu vou mexendo cá no meu mundo. E vou trabalhar com gente direita — pode ficar certo de que se eu farejar o rasto, trago o mano nos grampos. Vá descansado.
E estendeu a mão ao estudante. Ritinha, sempre lânguida, encostada à cômoda, olhava-o com os seus grandes olhos negros, aveludados que, por vezes, pareciam adormecer à sombra dos longos cílios. Paulo adiantou-se para falar-lhe com reserva e ela, como a custo, levantou o braço e entregou-lhe a mão, passivamente, num abandono. Tomou o chapéu e, já no quintalejo, sob a folhagem lustrosa, disse:
— Então até logo, Mamede; e trabalha.
— Não precisa pedir, nhozinho: eu entro nisso com o coração. — Paulo, porém, atraía-o e, quando o viu fora, longe das vistas de Ritinha, entre os velhos caixotes de plantas, perguntou-lhe em segredo: Estás armado? — O mulato recuou, como ofendido; o estudante, porém, já com a mão no bolso, continuou: Sem cerimônia, meu velho; entre nós deve haver franqueza. Eu posso passar algum.
— Que é isso, nhozinho! Então eu vou receber dinheiro de vosmecê?! Isso não! não senhor!
— Tu precisas, Mamede.
— Ora quê! Dinheiro arranja-se.
— Qual arranja-se, — insistiu o rapaz, tirando do bolso algumas notas amarfanhadas.
O mulato sorria, meio vexado; e a voz fresca de Ritinha recomeçou languidamente a modinha sertaneja. O estudante dobrou uma nota e meteu-a, à força, na mão calosa do mulato, que recuava, sorrindo.
— Que é isso nhozinho! Tenha paciência, isso não.
— Ora... — Afastou-se e, voltando-se da cancela, recomendou: E trabalha!
Vamos ver se conseguimos descobrir o miserável.
— Não há dúvida. Eu saio já; é só o tempo de botar alguma coisa na boca.
Paulo acenou um adeus, e o mulato, agarrado à cerca, sorrindo, inclinou-se, recomendando:
— Lembranças, nhozinho.
CAPÍTULO V
Descendo, sempre alvejado pelos olhares curiosos da gente da estalagem, o estudante sentia-se vexado. Dir-se-ia que aquele povo simples, olhando-o e cochichando, comentava, como se o conhecesse, o segredo que ali o levara. Precipitou os passos e, achando-se na rua, atirou-se a um bonde que passava sem saber ao certo o rumo que devia seguir.
Sentou-se, muito encolhido, e logo o tipo sensual de Ritinha surgia-lhe como uma visão. Onde a teria o Mamede encontrado, tão nova, tão linda, bem diferente da Libânia, sua antiga companheira, uma bexigosa relaxada, que andava em mangas de camisa, tresandando a sarro, cuspilhando nojosamente, sempre em rusgas com a vizinhança da casa da Rua do Conde? Invejou o mulato. Devia ser delicioso viver com uma rapariguinha como aquela, vê-la, senti-la sempre, dobrando-a a um ligeiro aceno, sujeitando-a com um ardente olhar, como uma humilde, submissa escrava do amor.
Tão distraído estava com os pensamentos lúbricos que não deu pelo condutor — foi necessário que ele lhe tocasse o braço; voltou-se e, precipitadamente, desculpando-se, meteu a mão no bolso e pagou.
Depois de uma curta parada, de muda, diante da estação, o bonde seguiu rápido, ladeira abaixo, aos trancos.
Quando avistou os Arcos o estudante perguntou a si mesmo: "Mas para onde vou eu?" Não sabia, deixava-se levar ao acaso, sem indagar. Talvez encontrasse Violante.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)COELHO NETO, Henrique Maximiano. O Turbilhão. 1906. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16596 . Acesso em: 7 abr. 2026.