Por Coelho Neto (1890)
O luar, sempre branco, caía sobre os telhados e, quando ele chegou à casa, mergulhada numa grande paz de sono, subiu ao sótão, abriu largamente a janela e, alongando os olhos, pôs-se a contemplar as fitas de luzes que se estendiam como círios de uma procissão interminável que andasse pela cidade em penitência. Mas o sonho foi-se tornando maior, em grandioso crescendo: era a festa triunfal da sua vitória: a cidade esplendia, o céu irradiava. E, ouvindo o confuso rumor que chegava de longe, na aragem, como a ressonar da cidade imensa, dormindo sob o lençol do luar, parecia-lhe o marulho longínquo dos que vinham, com luzes, arrancá-lo daquela mansarda para a apoteose.
Galos cantaram. Lançou um último olhar à cidade e ao céu e recolheu-se.
Embaixo, no silêncio da casa, um relógio lento bateu três horas.
CAPÍTULO III
Três dias depois já estavam instalados no segundo andar da casa da rua Formosa, com independência e ordem.
A sala, recebendo luz por duas largas janelas da frente e por uma outra que abria sobre o telhado vizinho, era clara e alegre, com um papel idílico reproduzindo, de alto a baixo, nas quatro faces, o encontro de amor de um pajem e de uma dama entre ramos de árvores sangüíneas, à beira de uma lagoa muito azul onde nadava um cisne, tudo isso sobre um fundo de campos perdidos com uma choupana e rebanhos. Era romântico.
Ruy Vaz e Anselmo tomaram a sala; Toledo, concentrado e casmurro, escolhendo a alcova recôndita da sala de jantar, arranjara, diante da cama esguia, a sua mesa de trabalho, sóbria e honesta, com os seus graves compêndios de Anatomia, vários ossos, um castiçal de louça, o tinteiro, o pote de fumo e, na parede caiada, muito juntos, os retratos do pai e da mãe encimados por uma gravura na qual se via Beethoven, de olhos extasiados, sonhando entre pautas e anjos com harpas e flautas, a face na mão, o cotovelo sobre o teclado de um órgão.
A sala tinha aspecto. As duas mesas, fronteiriças, um canapé, repousando sobre surrado tapete onde havia estampada uma cena de serralho, a estante alta, de Anselmo, atochada de livros, duas outras de Ruy Vaz numa desordem de brochuras de vários tamanhos, quatro cadeiras e, ao centro, larga e convidativa cadeira de balanço com estribo para os pés.
A Barricada teve o lugar de honra na parede entre dois originais preciosos representando um burgo-mestre e um pescador, telas que o romancista, com muito acatamento, atribuía a Rembrandt pelo tom obscuro que cercava as cabeças serenas dos flamengos. E um velho relógio acompanhava o trabalho com o seu tictac monótono, quando não caía em silêncio à falta de corda.
Falou-se em uma empanada para as janelas a fim de que a luz não entrasse tão vívida na sala, mas razões fortes de ordem econômica fizeram com que desistissem de tal idéia. Na alcova emparelhavam-se duas camas e, entre elas, o lavatório de vinhático, uma maravilha! Na sala de jantar a mesa de pinho solitária e lustrosa. À hora das refeições cada qual tomava a sua cadeira e levava-a de rastos pelo corredor, onde havia um socavão para jornais e ratos.
Dona Ana dirigia a casa ajudada pela filha: Vidinha, morena de dezessete anos, de olhos negros amendoados, cabelos fartos, sempre soltos, rolando pelos ombros até ao colo muito rijo, e pelas costas, chegando à cinta delgada; era a alegria da casa.
O Lins dava-lhe a alcunha expressiva de Míle. Cotovia, porque eram as suas gargalhadas que despertavam os rapazes.
Leonor, negrinha esgalgada, espevitada e zarelha, de colo murcho; órfã, trazida de um recolhimento e João, o filho mais novo da viúva, rapazelho sardento, muito obsceno de linguagem, que trazia a casa em constante alvoroço respondendo à mãe com insultos, atirando-se à irmã às dentadas, numa ferocidade canina, perseguindo a negrinha indecorosamente.
Às vezes traziam-no à casa ensangüentado e imundo das brigas que tivera na rua. Andava sempre armado com um velho canivete que escondia no papo da camisa e descalço, cigarro nos beiços, abalava em farândolas para as praças, para os morros, numa vida devassa e vadia.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.