Por Raul Pompéia (1880)
Só dous anos, porém, durou a tranqüilidade para Eustáquio.
Os negros já quase dele se haviam esquecido. Viviam errantes, cometendo pequenos roubos em lugares distantes uns dos outros, para não despertarem desconfiança.
Depois de uma das suas mais ricas colheitas, estavam eles um dia de manhã, reunidos no meio de uma floresta úmida e escura, onde a luz diurna, passando dificilmente a copa do arvoredo, difundia-se em duvidosos clarões.
Assentados em círculo, conversavam.
Ouvi tanto falar em índios, dizia um, e entretanto ainda não vimos nem um só deles.
— É mesmo de pasmar, dizia outro. Há dous anos e tanto que nós vagamos por esses matos sem encontrar essa gente.
— Não falemos em índios, notou depois um terceiro. Contam tantas histórias dos tais sujeitos que eu nem quero pensar neles. Deus nos livre. Se nos agarrassem, nos tomariam tudo e só nos haviam de pagar com uns elogios ao gosto do nosso lombo.
— Eles comem gente. Não é? perguntou ingenuamente um negro velho, por não haver compreendido a frase do companheiro.
— Comem, respondeu esse companheiro, que olhou de repente para trás, como se tivesse ouvido rumor suspeito.
— E, se são índios que aí vêm, podemos já nos preparar, acrescentou ele, para darmos um passeio por suas tripas. Fica bem entendido que não entraremos inteirinhos.
Apesar de estar gracejando, a voz do negro denunciava medo.
— Que cousas está você dizendo? gritaram os outros. Onde viu índios, maluco?
— Escutem, disse ele.
Todos os negros se inclinaram para ouvirem melhor alguma cousa diferente do rumorejar do vento...
— Índios! Índios! bradou aterrado um deles, levantando-se. Os índios! ai estão eles!
Um ruído de folhas secas, pisadas, assinalava claramente a aproximação de homens ou animais.
Os negros se tinham erguido e já se metiam pelo mato fugindo. Apareceram então seis homens, saindo dentre dons matagais.
— Por que fogem, medrosos? gritaram para os fugitivos. Somos amigos!
Os pretos voltaram-se, apenas ouviram essas inesperadas palavras. Viram que os recém-chegados não eram índios. Eram indivíduos de cor branca, mal vestidos mas perfeitamente armados.
— Não tenham medo, continuaram os homens brancos, não somos inimigos de vocês.
Os negros animaram-se a se chegar para eles. Pelo instinto de bandidos, adivinhavam que os tais homens não eram muito melhores do que os assassinos de um pobre fazendeiro. Assentaram-se pois como amigos sobre umas raízes, que se alongavam, estorcendo-se fora da terra, e travaram conversa.
Um dos homens brancos, de barbas incultas, sobrancelhas grossas e de maneiras que indicavam o hábito de mandar, encarregou-se de dizer que espécie de gente eram os seus companheiros e ele. Apesar da incorreção da sua linguagem, uma mistura de espanhol com português, deu a conhecer que eram espanhóis, residentes desde longa data no Equador e que finalmente se haviam passado para o Brasil, onde pretendiam continuar a cometer latrocínios, sua única profissão naquela república. Disse mais que tinham estado durante alguns dias na povoação de S. João do Príncipe e aí ouvido falar-se da existência de uns escravos evadidos, aos quais eram atribuídos vários crimes. Confessou francamente que, depois de saberem do ódio votado por esses escravos a um certo Eustáquio, homem de uma fortuna que, segundo se suspeitava, não era multo pequena, tomaram a resolução de procurá-los para com eles assaltarem a casa do tal ricaço. Terminou dizendo que julgavam estar diante dos amigos em cuja procura andavam, havia mais de vinte dias, e por isso ele, falando por si e pelos seus companheiros, de quem era chefe, propunha que, de então em diante, negros e espanhóis só operassem conjuntamente.
Os escravos responderam declarando que eram eles realmente os criminosos evadidos a que se referiram os informadores dos espanhóis e contaram toda sua história, desde o dia do assassinato do fazendeiro até o momento em que resolveram suspender a perseguição de Eustáquio, porque temiam acabar como o companheiro, que fora morto por um policial do serviço do perseguido.
— Que fracalhões! exclamou então o chefe dos espanhóis. Perdem um companheiro e, longe de o vingarem, fogem como covardes!
— Porque ninguém gosta de morrer, desculpou um negro.
— Ora! Quem é esperto não morre como qualquer tolo. Sejam mais vivos e tratem de vingar o companheiro... Se quiserem tomar vingança desse Eustáquio, que tanto mal lhes fez,... estamos prontos para os auxiliarmos.
— Queremos, queremos! disseram a uma voz os negros.
— Aceitam pois a minha proposta?
— Aceitamos!
— Então, é negócio feito. De hoje em diante nós, brancos, uniremos nossos esforços para facilitarmos a vingança que vocês desejam, e vocês, pretos, unirão os seus para facilitarem a nossa pretensão, isto é a posse do dinheiro do tal Eustáquio.
— É bom lembrar, observou um negro sorrindo, que nós não queremos unicamente nos vingar... alguma cousa mais não destruiria o prazer da vingança.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. Uma tragédia no Amazonas. Rio de Janeiro: Typ. Cosmopolita, 1880. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17442 . Acesso em: 6 abr. 2026.