Por Raul Pompéia (1882)
— Diga-me por que são fundadas...
— São fundadas... porque os srs. duques, quando vão a alguma festa, tencionando depois seguir para Anatópolis, sem retornar aqui ao palácio, mandam, para guardarmos, as melhores jóias.
— E o meu anel?
— O anel de vossa excelência é das melhores jóias...
— E o que tem isso?...
— A sra. duquesa, tendo o levado, necessariamente mandou-o entre as jóias que vieram ontem.
— Entre as jóias roubadas!... — bradou o marquês, dolorosamente.
Os criados continuavam enchendo a sala, como que esperando ordens.
O marquês, como se notasse repentinamente a presença deles, voltou-se exabrupto e gritou:
— O que querem vocês aqui?
Os criados, movidos por uma só mola, baixaram um cumprimento e, com a sua seriedade obediente e servil, afastaram-se de costas alguns passos, saindo depois todos por um dos lados da sala.
O particular do duque, que estivera inertemente encostado a uma janela, fugiu para o seu aposento.
O marquês ficou só com o mordomo, que já completara o vestuário, deixando o robe de chambre.
O fidalgo teve, então, um acesso de furor. Começou a trocar largas passadas pelo soalho como um andarilho mecânico a que se tivesse dado corda.
— Roubado! — repetia. — Roubado!
Quando passou-lhe o acesso de raiva ambulante, o marquês assumiu um ar de desconsolação:
— Uma jóia de tal preço!... É possível?!
Depois de ter respeitado por algum tempo o desespero do marquês, o mordomo perguntou receosamente:
— Que acha V. Exa., que eu devo fazer?
O marquês não deu resposta imediatamente. Esteve abstrato alguns segundos e depois perguntou:
— O que está dizendo?
— V. Exa. ordena que se chame a polícia?
— Ah! Pois ainda não chamou?
— Queria antes aconselhar-me...
— Ora, aconselhar-se!...
— Vou mandar chamar o chefe de polícia... — Mande!... Mande!... Mande!...
O mordomo retirou-se. O marquês foi até uma das janelas da sala.
O sol acabava de levantar-se e trespassava o arvoredo do parque com largas lâminas de luz vermelha. Na espaçosa sombra que projetava o palácio, estava muita gente olhando para cima, na direção da corda pendurada ao gancho da janela. O marquês olhou na mesma direção e descobriu a corda. — Ah! — disse consigo. — Por ali subiram os miseráveis!
Depois voltou a vista para curiosos do parque e pôs-se a procurar involuntariamente o ladrão naquela multidão. Cada cara embasbacada afigurava-selhe a de um malfeitor disfarçado.
— Ah! Se o apanho! — murmurou.
E, tendo ouvido passos na sala, saiu da janela. Era o mordomo.
— O chefe de polícia vem? — perguntou-lhe o marquês.
— Vai chegar em um momento.
— Bem. Veremos se esta polícia serve para alguma coisa. — Creio que a polícia descobrirá tudo...
Passado algum tempo, um criado apareceu na sala e anunciou o sr. doutor Louro Trigueiro, chefe de polícia.
— Diga-lhe que entre — mandou o marquês.
O criado retirou-se.
Impaciente, o sr. d’Etu deixou o mordomo e correu ao encontro do chefe de polícia. Meteu uma cabeçada no reposteiro para não perder tempo em afastá-lo...
— Vi! — exclamou involuntariamente.
Acabava de dar um encontrão em alguém. Do lado oposto do reposteiro ouviram-se algumas pragas mal contidas.
As mãos de duas pessoas levantaram a mesma ponta de pano, e o marquês esbarrou no chefe de polícia.
Não move tempo para explicações a propósito da cabeçada.
— A sua presença é necessária aqui, sr. doutor.
— Sr. marquês —, respondeu graciosamente o chefe, para tudo...
— Houve um roubo no palácio!... Roubaram-me um anel, um anel, sr. doutor!
— E muitas jóias do sr. duque — concluiu o mordomo, notando que o marquês só se incomodava consigo.
— É grave — disse o chefe de polícia, abandonando o sorriso cortês de que se revestira ao entrar, e tomando uma seriedade de Javert.
— Gravíssimo! — superlativou o marquês —, pois um anel!...
— E tantos adereços!... — emendou ainda o mordomo.
— Onde está o armário que disseram-me que se arrombara?...
O marquês e o mordomo mostraram ao Dr. Louro o arrombamento, as janelas que haviam aparecido abertas, a corda...
— Um caso de roubo... — murmurou o chefe de polícia, diagnosticando com uns ares de quem entende...
— De quem se desconfia? — interrogou ele, voltando-se para o mordomo.
— Sr. doutor, não quero aventurar...
— Eu desconfio de todos! — exclamou precipitadamente o marquês.
— Como não há criminoso apontado por sérias aparências, vejamos os primeiros responsáveis... mas... antes disso... o sr. duque de Bragantina partiu para Anatópolis?...
— Não, senhor, — respondeu o mordomo.
— Não partiu? — perguntou admirado o marquês.
— Não, senhor... O sr. duque resolveu adiar a viagem...
— Então já lhe comunicaram?... — perguntou o chefe de polícia.
—O sr. duque está em casa do sr. marquês de *** e como deve chegar daqui a uma ou duas horas pareceu-me bom não incomodá-lo com...
— Seria, na verdade, inútil... — concordou o chefe.
— Mas, antes da chegada do sr. duque, devemos... — começou o mordomo.
— Sim, devemos quais são os primeiros culpados de se haver dado o roubo — concluiu pausadamente o chefe de polícia.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. As joias da coroa. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17439 . Acesso em: 6 abr. 2026.