Por Euclides da Cunha (1902)
O marechal Floriano Peixoto — profundo conhecedor dos homens do seu tempo — nos períodos críticos de seu governo, em que a índole pessoal de adeptos ou adversários influía, deixou-o sempre, sistematicamente, de parte. Não o chamou; não o afastou; não o prendeu. Era-lhe por igual desvalioso como adversário ou partidário. Sabia que o homem, cuja carreira se desatava numa linha reta, seca, inexpressiva e intorcível, não daria um passo a favor ou contra no travamento dos estados de sítio.
A República fora-lhe acidente inesperado no fim da vida.
Não a amou nunca. Sabem-no quantos com ele lidaram. Foi-lhe sempre novidade irritante, não porque mudasse os destinos de um povo senão porque alterava umas tantas ordenanças e uns tantos decretos, e umas tantas fórmulas, velhos preceitos que sabia de cor e salteado.
Ao seguir para a Bahia desenfluíra todos os entusiasmos. Quem dele se abeirasse, buscando alentos de uma intuição feliz ou um traço varonil, sulcando a situação emocionante e grave, que até lá o arrastava, topava, surpreso, a esterilidade de uns conceitos triviais, longas frivolidades cruelmente enfadonhas sobre paradas de tropas, intermináveis minúcias sobre distribuição de gêneros e remontas de cavalhadas — como se este mundo todo fosse uma imensa Casa da Ordem, e a História uma variante da escrituração dos sargentos.
Saltou naquela capital quando ia em sua plenitude o fervor patriótico de todas as classes; e de algum modo o amorteceu. Manifestações ruidosas, versos flamívomos, oradores explosivos passaram-lhe por diante, estrondaram-lhe em torno, deflagraram-lhe aos ouvidos, num estrepitar de palmas e aplausos. Ouviu-os indiferente e contrafeito. Não sabia respondê-las. Tinha a frase emperrada e pobre. Além disso, tudo quanto saía do passo ordinário da vida não o comovia, desorientava-o, contrariava-o.
Recém-vindos da luta, requerendo uma transferência ou uma licença, nada adiantavam se, dispensando a formalidade de um atestado médico, lhe pusessem à vista apenas o rombo de um tiro de trabuco ou um gilvaz sangüíneo ou um rosto cadavérico de esmaleitado. Eram coisas banais, do ofício.
QUADRO LANCINANTE
Certa vez essa insensibilidade lastimável calou profundamente. Foi numa visita a um dos hospitais.
O quadro do amplo salão era impressionador...
Imaginem-se dois extensos renques de leitos alvadios, e sobre eles — em todas as atitudes, rígidos debaixo dos lençóis escorridos como mortalhas; de bruços, ou acaroados com os travesseiros, em mudos paroxismos de dores; sentados, ou acurvados, ou estorcendo-se em gemidos — quatrocentos baleados ! Cabeças envoltas em tiras sanguinolentas; braços partidos, em tipóias; pernas encanadas, em talas, rigidamente estendidas; pés disformes pela inchação, atravessados de espinhos; peitos broqueados à bala ou sarjados à faca; todos os traumatismos e todas as misérias...
A comitiva que encalçava o ministro — autoridades estaduais e militares, jornalistas, homens de toda a condição — ali entrou silenciosamente, tolhida de assombros.
Começou a lúgubre visita. O marechal aproximava-se de um ou outro leito, lendo maquinalmente a papeleta pendida à cabeceira; e seguia.
Mas teve que estacar um momento. Surgira-lhe em frente, emergindo dos cobertores, a face abatida de um velho, um cabo de esquadra, veterano de 35 anos de fileira. Uma vida batida a coice de armas desde os pântanos do Paraguai às caatingas de Canudos... E no rosto macilento do infeliz resplandecia um belo riso jovial e forte. Reconhecera o ministro do qual fora ordenança nos bons tempos de moço, em que o acompanhara na batalha, nos acantonamentos, nas longas marchas fatigantes. E dizia-o, agitado, voz sacudida e rouca, numa alegria dolorosíssima, num delírio de frases rudes e sinceras — olhos refulgentes de alacridade e de febre, e forçando por erguer-se, abordoando o tronco esmirrado aos braços finos e trêmulos; entreaberta a camisa de algodão deixando ver, na clavícula, a nódoa de uma cicatriz antiga...
Era empolgante a cena. Resfolegaram surdamente, opressos, todos os peitos. Empanaram-se todas as vistas, de lágrimas... e o marechal Bittencourt prosseguiu, tranqüilamente, continuando a leitura maquinal das papeletas.
É que tudo aquilo — fortes emoções ou quadros lancinantes — estava fora do programa. Não o distraía.
Era realmente o homem feito para aquela emergência. O governo não depararia quem melhor lhe transmitisse a ação, intacta, rompendo retilineamente no tumulto da crise.
Nesse abnegar-se a si próprio, abdicando todas as regalias da própria posição, fez-se, na lídima significação do termo, o Quartel-Mestre-General de uma campanha em que era chefe supremo um seu inferior hierárquico.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CUNHA, Euclides da. Os Sertões. 1902. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16626. Acesso em: 10 jun. 2026.