Por Euclides da Cunha (1902)
As tropas confluíam do extremo norte e do extremo sul, acrescidas dos corpos policiais de S. Paulo, Pará e Amazonas. Nessa convergência para o seio da antiga metrópole, o paulista, forma delida do bandeirante aventuroso; o rio-grandense, cavaleiro e bravo; e o curiboca nortista, resistente como poucos — índoles díspares, homens de opostos climas, contrastando nos usos e tendências étnicas, do mestiço escuro ao caboclo trigueiro e ao branco, ali se agremiavam sob o liame de uma aspiração uniforme. A antiga capital agasalhava-os no recinto de seus velhos baluartes, rodeando num mesmo afago carinhoso e ardente a imensa prole havia três séculos erradia. Depois de longamente dispersos os vários fatores da nossa raça volviam repentinamente ao ponto de onde tinham partido, tendendo para um entrelaçamento belíssimo. A Bahia ataviara-se para os receber . Transfigurou-a aquele fluxo da campanha — mártires que chegavam, combatentes que seguiam — e, partida a habitual apatia, revestiu a feição guerreira do passado. As inúteis fortalezas, que se lhe intercalam, decaídas à parceria burguesa das casas, no alinhamento das ruas, prontamente reparadas, cortadas as árvores que nasciam nas fendas das suas muralhas, ressurgiam à luz, recordando as quadras em que rugiam naquelas ameias as longas colubrinas de bronze.
Nelas aquartelavam os contingentes recém-vindos: o 1.° Batalhão Policial de
S. Paulo, com 458 praças e 21 oficiais, comandado pelo tenente-coronel Joaquim Elesbão dos Reis; os 29.º, 39.°, 37.°, 28.º, e 4.°, dirigidos pelo coronel João César de Sampaio, tenentes-coronéis José da Cruz, Firmino Lopes Rego e Antônio Bernardo de Figueiredo e major Frederico Mara, com efetivos sucessivos de 240 praças e 27 oficiais, 250 praças e 40 oficiais, 332 praças e 51 oficiais, 250 praças e 11 oficiais, além de 36 alferes adidos, e o 4.° com 219 praças e 11 alferes que eram toda a oficialidade, não tendo nem capitães nem tenentes. Por fim dois corpos: o Regimento Policial do Pará, somando 640 combatentes, comandados pelo coronel José Sotero de Meneses, e um da polícia do Amazonas, sob o comando do tenente Cândido José Mariano, com 328 soldados.
Estes reforços, que montavam a 2.914 homens incluídos perto de trezentos oficiais, foram repartidos em duas brigadas, a de linha, ao mando do coronel Sampaio e os da polícia — excluída a de S. Paulo, que seguira isolada na frente, sob o do coronel Sotero — constituindo uma divisão que foi entregue ao general de Brigada Carlos Eugênio de Andrade Guimarães.
Todo o mês de agosto gastou-se em mobilizá-los. Chegavam destacadamente à Bahia; municiavam-se e embarcavam para Queimadas e dali para Monte Santo, onde deviam concentrar-se nos primeiros dias de setembro.
Os batalhões de linha, além de desfalcados, como o indicam os números acima, reduzidos quase a duas companhias, vinham desprovidos de tudo, sem os mais simples apetrechos bélicos — à parte as espingardas velhas e o fardamento ruço, que haviam servido na recente campanha federalista do Sul.
O marechal Bittencourt
O marechal Carlos Machado de Bittencourt, principal árbitro da situação, desenvolveu, então, atividade notável.
Vinha de molde para todas as dificuldades do momento.
Era um homem frio, eivado de um ceticismo tranqüilo e inofensivo. Na sua simplicidade perfeitamente plebéia se amorteciam todas as expansões generosas. Militar às direitas, seria capaz — e demonstrou-o mais tarde ultimando tragicamente a vida — de se abalançar aos maiores riscos. Mas friamente, equilibradamente, encarrilhado nas linhas inextensíveis do dever. Não era um bravo e não era um pusilânime.
Ninguém podia compreendê-lo arrebatado num lance de heroísmo. Ninguém podia imaginá-lo subtraindo-se tortuosamente a uma conjuntura perigosa. Sem ser uma organização militar completa e inteiriça, afeiçoara-se todavia ao automatismo típico dessas máquinas de músculos e nervos feitas para agirem mecanicamente à pressão inflexível das leis.
Mas isto menos por educação disciplinar e sólida que por temperamento, inerte, movendo-se passivo, comodamente endentado na entrosagem complexa das portarias e dos regulamentos. Fora disto era um nulo. Tinha o fetichismo das determinações escritas. Não as interpretava, não as criticava: cumpria-as. Boas ou péssimas, absurdas, extravagantes, anacrônicas, estúpidas ou úteis, fecundas, generosas e dignas, tornavam-no proteiforme, espelhando-as — bom ou detestável, extravagante ou generoso e digno. Estava escrito. Por isto, todas as vezes que os abalos políticos lhas baralhavam, se retraía cautelosamente ao olvido.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CUNHA, Euclides da. Os Sertões. 1902. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16626. Acesso em: 10 jun. 2026.