Por Euclides da Cunha (1902)
A população da capital recebia-os comovida. Como sempre sucede, o sentimento coletivo ampliara as impressões individuais. O grande número de pessoas, identificadas pela mesma comoção, fez-se o expoente do sentir de cada um e, vibrando uníssonas todas as almas, presas do mesmo contágio, e sugestionadas pelas mesmas imagens, todas as individualidades se apagaram no anonimato nobilitador da multidão piedosa que bem poucas vezes apareceu tão digna na História. A vasta cidade fez-se um grande lar. Organizaram-se em toda a linha comissões patrióticas, para agenciar donativos, que espontaneamente surgiram numerosos, constantes. No Arsenal de Guerra, na Faculdade Médica, nos hospitais, nos próprios conventos, se improvisaram enfermarias. Em cada uma dessas os gloriosos mutilados foram postos sob o patrocínio de algum nome ilustre: Esmarck, Claude Bernard, Duplay, Pasteur, jamais tiveram tão bela consagração no futuro. Avantajando-se à ação do governo, o povo constituíra-se tutor natural dos enfermos, amparando-os incondicionalmente, abrindo-lhes os lares, rodeando-os, animando-os, auxiliando-lhes os passos trôpegos nas ruas. Nos dias facultados às visitas, invadia os hospitais, em massa, em silêncio — religiosamente. Abeiravam-se então os visitantes dos leitos como se neles jazessem velhos conhecidos; tratavam com os doentes menos graves sobre as provações sofridas e lances arriscados ocorridos; e, ao deixarem aquelas trágicas exposições da guerra feitas de traumatismos e moléstias horríveis, levavam, afinal, um juízo claro sobre a luta mais brutal dos nossos tempos. Mas, por um contraste inexplicável, sobre esta comiseração profunda e geral pairava, intenso, um entusiasmo vibrante. Os mártires tinham ovações de triunfadores. E estas despontavam ao acaso, sem combinações prévias, rápidas, espontâneas, incisivas, aparecendo e desaparecendo em quartos de hora, num desencadear intermitente de movimentos impulsivos. Os dias sucediam-se agitados numa larga movimentação de multidões ruidosas, turbilhonando nas ruas e nas praças, no meio de expansões discordes, numa alacridade singular rorejada de prantos, por meio da qual se fazia a comemoração sombria do heroísmo. Os feridos eram uma revelação dolorosíssima, certo, mas de algum modo alentadora. Naquelas sevícias retratava-se a energia de uma raça. Aqueles homens que chegavam dilacerados pelas garras do jagunço e pelos espinhos da terra eram o vigor de um povo posto à prova do ferro, à prova do fogo e à prova da fome. Abaladas pelo cataclismo da guerra, as camadas superficiais de uma nacionalidade cindiam-se, pondo à luz os seus elementos profundos naqueles titãs resignados e estóicos. Sobre tudo isto um pensamento diverso, não boquejado sequer mas por igual dominador, latente em todos os espíritos: a admiração pela ousadia dos sertanejos incultos, homens da mesma raça, de encontro aos quais se despedaçavam daquele modo batalhões inteiros ...
E um longo frêmito tonificador vibrava nas almas. Faziam-se romarias ao quartel da Palma, onde estava ferido o coronel Carlos Teles; à Jequitaia, onde convalescia o general Savaget; e quando este último pode arriscar alguns passos nas ruas, paralisou-se inteiramente toda a azáfama comercial da cidade baixa, em ovação espontânea e imensa, que, irradiando de repente e congregando a população em torno do heróico chefe da 2.ª coluna, transmudou um dia comum de trabalho em dia de festa nacional.
BAIXAS
Sobre esta agitação chegavam diuturnamente pormenores que a acirravam. Sabia-se, por fim, positivamente, com rigor aritmético, a extensão do desastre. Era surpreendente.
De 25 de junho, em que trocara os primeiros tiros com o inimigo, até 10 de agosto, tivera a expedição 2.049 baixas.
Detalhavam-nas os mapas oficiais.
No total entrava a 1.ª coluna com 1.171 homens e a 2.ª com 878. Discriminadamente eram estes os algarismos:
"1ª coluna — Artilharia: 9 oficiais e 47 praças feridas; 2 oficiais e 12 praças mortas; ala de cavalaria: 4 oficiais e 46 praças feridas; 30 oficiais e 16 praças mortas; engenheiros: 1 oficial e 8 praças feridas; 1 praça morta; corpos de polícia: 8 oficiais e 46 praças feridas; 8 oficiais e 24 praças mortas; 5.° Batalhão de Infantaria: 4 oficiais e 66 praças feridas; 1 oficial e 25 praças mortas; 7.°: 8 oficiais e 95 praças feridas; 5 oficiais e 52 praças mortas; 9.°: 6 oficiais e 59 praças feridas; 2 oficiais e 22 praças mortas; 14.°: 8 oficiais e 119 praças feridas; 5 oficiais e 42 praças mortas; 15.°: 5 oficiais e 30 praças feridas; 10 praças mortas; 16.°: 5 oficiais e 24 praças feridas; 10 praças mortas; 25.°: 9 oficiais e 134 praças feridas; 3 oficiais e 55 praças mortas; 27.°: 6 oficiais e 45 praças feridas; 24 praças mortas; 30.°: 10 oficiais e 120 praças feridas; 4 oficiais e 35 praças mortas.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CUNHA, Euclides da. Os Sertões. 1902. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16626. Acesso em: 10 jun. 2026.