Por Padre Antônio Vieira (1655)
Naquele mesmo dia tinha determinado Isac dar a bênção a Esaú, e porque esta solenidade havia de ser sobremesa, quis o bom velho, para mais sazonar o gosto, que se lhe fizesse um guisado do que matasse na caça o mesmo filho. Parte ao campo alegre e alvoroçado Esaú, porém Rebeca, que queria o morgado para Jacó, a quem mais amava, aproveitando-se da ausência do irmão e da cegueira do pai, já sabeis o que traçou. Manda a Jacó ao rebanho, vêm cabritos em vez de lebres, da carne faz o guisado, das peles guisa o engano, e vestido Jacó das roupas de Esaú, e calçado, que é mais, de mãos também de Esaú, aparece em presença do cego pai, e põe-lhe o prato diante. Perguntou Isac quem era? E respondeu mui bem ensaiado Jacó, que era seu primogênito, Esaú. Admirou-se de que tão depressa pudesse ter achado a caça, e respondeu com singeleza tanta, que fora vontade de Deus. E com estas duas respostas, depois de lhe tentar as mãos, lhe lançou Isac a bênção, e ficou o bendito Jacó com o morgado e casa de seu pai, e Esaú com o que tivesse no cinto. Há tal engano? Há tal fingimento? Há tal crueldade? Pois estes são os modos de negociar e vencer. Sete enganos fingiu Rebeca para tirar a casa a cuja era. Fingiu o nome a Jacó, porque disse que era Esaú. Fingiu-lhe a idade, porque disse que era o primogênito. Fingiu-lhe os vestidos, porque eram os do irmão. Fingiu-lhe as mãos, porque a pele e o pêlo era das luvas. Fingiu-lhe o guisado, porque era do rebanho, e não do mato. Fingiu a diligência, porque Jacó não tinha ido à caça. E para que nem a suma verdade ficasse fora do fingimento, fingiu que fora vontade de Deus, sendo duas vontades de Rebeca: uma com que queria a Jacó, e outra com que desqueria a Esaú. E com nome fingido, com idade fingida, com vestidos fingidos, com mãos fingidas, com obras e serviços fingidos, e até com Deus fingido, se tirou o direito, a justiça, a fazenda, a honra, a sucessão a quem a tinha dado o nascimento uma vez, e o merecimento muitas.
Parece-vos grande sem-razão esta? Tendes muita razão. Mas esta tragédia que uma vez se ensaiou em Hebron, quantas vezes se representa na nossa corte? Quantas vezes com nomes supostos, com merecimentos fingidos, e com abonações falsificadas, se roubam os prêmios ao benemérito, e triunfa com eles o indigno! Quantas vezes rende mais a Jacó a sua Rebeca, que a Esaú o seu arco? Quantas vezes alcança mais Jacó com as luvas calçadas, que Esaú com as armas nas mãos? Se no ócio da paz se medra mais que nos trabalhos da guerra, quem não há de trocar os sóis da campanha pela sombra destas paredes? Não o experimentou assim Davi, e mais, servia a um rei injusto e inimigo. Davi serviu em palácio e serviu na guerra: em palácio, com a harpa, na guerra, com a funda. E onde lhe foi melhor? Em palácio medrou tão pouco, que da harpa tornou ao cajado; na guerra montou tanto, que da funda subiu à coroa. Se se visse que Davi crescia mais à sombra das paredes de palácio que com o sol da campanha, se se visse que medrava mais lisonjeando as orelhas com a harpa que defendendo e honrando o rei com a funda, se se visse que merecia mais galanteando a Micol que servindo a Saul, não seria uma grande injustiça e um escândalo mais que grande? Pois isto é o que padecem os Esaús nas preferências dos Jacós.
Mas eu não me queixo tanto de Jacó e de Rebeca, que fizeram o engano, quanto de Isac que o não desfez depois de conhecido. Que Esaú padeça, Jacó possua, Rebeca triunfe, e que Isac dissimule! Que esteja tão poderosa a arte de furtar bênçãos, que tire Jacó a bênção da algibeira de Esaú, não só depois de prometida e decretada, senão depois de firmada e passada pelas chancelarias! E que haja tanta paciência em Isac, que lhe não troque a bênção em maldição? O mesmo Jacó o temeu assim. Quando a mãe o quis meter nestes enredos, disse ele que temia que seu pai descobrisse o engano, e que em lugar da bênção lhe deitaria alguma maldição: Timeo ne putet me sibi voluisse illudere, et inducam super me maledictionem pro benedictione.28 Mas Rebeca não fez caso deste reparo porque conhecia bem a Isac, e sabia que não tinha o velho cólera para tanto. Se Isac tivera outro valor, a bênção se restituira a Esaú, e Rebeca sentira o fingimento, e Jacó amargara o engano. Mas nem Isac era pai para aquele Jacó, nem marido para aquela Rebeca. E que Esaú fique privado do seu morgado para sempre, e que nem Rebeca que lho tira, nem Jacó que lho possui, nem Isac que lho consente, façam escrúpulo deste caso! Doutores há que condenam tudo isto, e outros há que o escusam. Eu não escuso nem condeno; admiro-me com as turbas: Et admiratae sunt turbae.
§IX
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 15 ago. 2026.