Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Sermões#Retórica

Sermão de Santo Inácio

Por Padre Antônio Vieira (1669)

Acabemos com o fim. O fim para que Deus ajuntou em Santo Inácio as semelhanças e perfeições de todos os santos, foi para que neste grande santo achássemos junto, o que nos outros santos se acha dividido. Santo Inácio, se bem se consideram os princípios e fins de sua vida, foi o fruto do Flos Sanctorum. O Flos Sanctorum era a flor, Santo Inácio foi o fruto. Se de todas as flores se compusesse uma só flor, esta flor havia de ter o cheiro de todas as flores; e se desta flor nascesse um fruto, este fruto havia de ter os sabores de todos os frutos. E esta maravilha fez Deus em Santo Inácio. O livro foi a flor, ele o fruto; um fruto que contém em si todos os sabores; um santo que sabe a tudo o que cada um deseja e há mister. O maná era semelhante sem semelhante: semelhante porque tinha o sabor de todos os manjares; sem semelhante, porque nenhum manjar sabia a tudo como ele. Por isso se chamou maná, ou manhu (Êx. 16,15), que quer dizer: Quid est hoc? Que é isto? E a esta pergunta se respondia: é tudo o que quiserdes. O mesmo digo eu de Santo Inácio. Tudo o que quiserdes, tudo o que desejardes, tudo o que houverdes mister, achareis neste santo, ou neste compêndio de todos os santos. Essa foi a razão por que ordenou a Providência divina que concorressem e se ajuntassem neste grande exemplar tanta diversidade de estados, de exercícios, de fortunas. Nasceu fidalgo, foi cortesão, foi soldado, foi mendigo, foi peregrino, foi preso, foi estudante, foi graduado, foi escritor, foi religioso, foi pregador, foi súdito, foi prelado, foi legislador, foi mestre de espírito, e até pecador foi em sua mocidade; depois, arrependido, penitente e santo. Para quê? Para que todos achem tudo em Santo Inácio: Omnibus omnia factus sum.26 O fidalgo achará em Santo Inácio uma idéia da verdadeira nobreza; o cortesão, os primores da verdadeira polícia; o soldado, os timbres do verdadeiro valor. O pobre achará em Santo Inácio que o não desejar é mais certa riqueza; o peregrino, que todo o mundo é pátria; o perseguido, que a perseguição é o caráter dos escolhidos; o preso, que a verdadeira liberdade é a inocência. O estudante achará em Santo Inácio o cuidado sem negligência; o letrado, a ciência sem ambição; o pregador, a verdade sem respeito; o escritor, a utilidade sem afeite.27 O religioso achará em Santo Inácio a perfeição mais alta; o súdito, a obediência mais cega; o prelado, a prudência mais advertida; o legislador, as leis mais justas. O mestre de espírito achará em Santo Inácio muito que aprender, muito que exercitar, muito que ensinar, e muito para onde crescer. Finalmente o pecador, por mais metido que se veja no mundo e nos enganos de suas vaidades, achará em Santo Inácio o verdadeiro norte de sua salvação; achará o exemplo mais raro da conversão e mudança de vida; achará o espelho mais vivo da resoluta e constante penitência e achará o motivo mais eficaz da confiança em Deus e na sua misericórdia, para pretender, para conseguir, para perseverar e para subir ao mais alto cume da santidade e graça, com a qual se mede a glória.

« Primeiro‹ Anterior...1314151617Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →