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#Contos#Literatura Brasileira

As Sete Dores de Nossa Senhora

Por Coelho Neto (1898)

Trilhou as estradas mais ásperas ao sol e á chuva ; visitou enfermos, ouviu opprimidos, verificou injustiças, conheceu a fome e a sede, a dôr das enfermidades e o peso das ingratidões.

Fez o milagre o foi apapado ; distribuiu o pão e deram-lhe o fel; resuscitou os mortos e acabou em uma cruz. Sorve, até a ultima gotta, o calice amargo e, a esta hora, já está no céu pedindo a seu Pai a misericordia para os homens.

O que agora lamentais não é o soffrimento, porque esse findou para Jesus ; lamentais a vossa solidão.

Mas os justos não morrem, porque deixam na terra o beneficio que os eteruisa.

É noite, não ha signal de sol no céu, mas escutai o crepitar do alfôbre : são as sementes que rebentam, porque o sol aqueceu-as e fecnndou-as. Virão arvores de sombra e fruto.

Elle aqui jaz sepultado no seio da pedra. Ide, porém, por todas as estradas e vê-lo-eis vivo o eterno. Elle é a esmola, Elle é a cura, Elle é a consolação, Elle é a prece.

A malga que o lavrador entrega ao mendigo faminto, foi Jesus que a encheu. O homem que espreme o balsamo na chaga do ferido foi guiado por vosso Filho. A mulher que se precipita para serenar o coração da viuva, ouvelhe a voz celestial e cumpre a sua ordem e a criança que se ajoelha, junta as mãos e ora, eternisa na prece a grande Fé que ha de consolar as almas.

O que ahi jaz pertence á terra, é o corpo. Não o choreis — levantai os olhos para o céu, lançai-o sobre o inundo afflicto e vereis que o vosso Filho vive.

— Oh! palavras que soam. Fazes commigo o que fazem as mais com os pequeninos: queres que eu adormeça e cantas, Deus! E tinha eu força para trazer um Deus... ? Sim, dizes bem... Deus! Só um Deus podia soffrer tanto e sem queixa, como Elle soffreu. Mas, ai! de mim, sou mulher, sou humana e as dores são muitas para a minha fragilidade.

Sabes que é um coração de mãi ? Eu mesma não sei como resisto a tamanha agonia.

A dor sustenta. Olho para todos os lados e vejo tudo deserto. O rumor que ouço é como o atrôo d'uma caverna. Estou no vazio, na solidão.

Antigamente — ainda hontem ! — mal anoitecia, eu ficava a esperá-lo. Se o vento sacudia a porta, logo me precipitava. Quantas noites passei em vigilia vendo, em vez d'Elle, entrar o sol da manhan.

Sabia-o longe e, quando me vinham referir os seus milagres, eu. chorava, invejando o enfermo que fora tocado pelas suas mãos, o morto que se levantara ao som da sua voz, o rochedo esteril que rebentara em fonte a seu mandado.

Elle andava a maravilhar as gentes e eu, ai! de mim, tão só, tão triste, sem, ao menos, poder vê-lo, ouvi-lo, porque Elle trocava o meu amor pela Humanidade e deixava os meus beijos sem pouso como avesitas perdidas nos mares Iargos que, exhaustas de voar, cahem e perecem na vaga. E agora...! É Deus, dizeis vós... E eu sou mãi. Ai! de mim.

Disse e, enlanguecendo, tombou como morta nos braços de Magdalena.

A noite scintillava estrellada e aves cantavam, ao luar, no horto que recendia.

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