Por Coelho Neto (1898)
dizendo, entretanto, que, pouco além, á beira do mar, jazia uma cidade Melinde de nome, governada por um rei muito humano, onde o Gama poderia achar o que buscava, ajuntando — que n’ aquelle porto estavam fundeados tres ou quatro navios de christãos.
Melhor seria ao Gama haver achado em um d'aquelles homens o piloto de que tanto carecia para a navegação n'aquelles mares que jamais haviam sido cavados pelas proas européas, melhor seria que pudesse fazer rumo directo, porque, tão más eram as impressões que da gente negra lhe ficaram durante o commercio que com ella tivera no seu curso que, de vel-a, já se lhe arreliava o coração e o animo abrazava-se mas, acima de tudo, estava a sua empreza, e, pensando na India e na gloria de avistal-a, resolutamente governou para Melinde.
MELINDE
II
Com jogos, danças e outras alegrias,
A segundo a policia Melindana,
Com usadas e ledas pescarias,
Com que a Lageia Antonio alegra e engana,
Este famoso Rei todos os dias,
Festeja a companhia Lusitana,
Com banquetes, manjares desusados,
Com fructas, aves, carnes e pescados.
(CAMÕES — Os Lusiadas, eanto VI.)
Do indeciso lusco-fusco - quasi extinctas as ardentias, com as estrellas morrendo no céu que se arreava de purpura e de ouro, num esplendor de victoria, como se pela Altura limpida anjos andassem estendendo brocados para a festa magnifica da Resurreição - rompia a manhã de Pascoa.
As aguas, apenas frisadas por uma brisa fraca, brilhavam tremulas como se fossem recobertas de pequeninas escamas reluzentes e as naus, com bandeiras e flamulas, seguiam a um brando balouço ao tempo em que a maruja, celebrando a memoravel dacta, tão gloriosa para a christandade, accordava o silencio com trombetas e charamellas nas quaes tocava a alvorada excelsa.
Chegavam-se todos ás bordas porque mouros, aprisionados no zambuco haviam annunciado Melinde; olhavam longamente, anciosamente quando uma claridade irradiante alastrou pelas aguas envolvendo as naus em um fluido de purpura, tingindo as velas e os cabos dum louro avermelhado: era o sol que nascia grande e rubro, surgindo d'agua como um deus oceanico que irrompesse, todo em galas tyrias, seguindo sobre ouro e coral e perolas esparsas.
Mas já, ao longe, o arvoredo apparecia como uma flora marinha que houvesse re-
pentinamente surgido á tona d'agua e brancos muros por entre arvores e outeiros d'um verde alegre e estendidas praias alvas. Mostravam-se, com o andar das naus, mais largas e pittorescas, as terras do novo reino.
Passaros voavam no ar sereno e macio, alguns pousavam nas vergas e ficavam debicando as pennas e, como a agua era transparente, viam-se os peixes nadando em volta das naus, em cardumes de prata. De nau a nau, indo ellas proximas, os marujos exclamavam: «Oh! que belleza!» como se reciprocamente se felicitassem.
O Gama, no seu posto, olhava indifferente a luz sem ver as bellezas d'aquelle remansado porto, d'aguas tão limpas e faceis e de tanta alegria na terra e no céu; o seu pensamento seguia por aquellas areias razas, não que as desejasse mas porque n'ellas suspeitava encontrar o homem que o devia conduzir á extrema do Levante. Talvez em terra, entre o arvorêdo basto, esse desejado amigo estivesse contemplando as naus que deram fundo á meia legua da costa; talvez os olhares se encontrassem e o Gama, descuidoso de tudo que o cercava, com a afflicção de ver esse mysterioso guia, aguçava as pupillas que apenas apanhavam a vasta paizagem d'Africa dourada pelo sol nascente.
Meditava quando o mouro principal dos que vinham no zambuco subio ao castello pedindo para fallar-lhe : recebeu-o cortezmente e, propoz-lhe o prisioneiro, que tivera, em viagem, todas as attenções, ir-se á terra com uma embaixada para o rei de Melinde, garantindo que elle os havia de receber com lhaneza.
Acceitou o Gama mandando immediatamente arriar um batei que levou uma guarnição d'escolha e, forrando-lhe o paneiro lustrosamente, acompanhou á escada o velho mouro que se foi, a largas remadas, sempre a acenar para os de bordo como a garantir o bom exito da commissão de que se encarregara e, como em a nau ficára a moça, esta fallava-lhe, sem duvida a pedir que fosse breve para resgatal-a porque já se affligia de andar como captiva posto que tivesse trato de princeza, e os mouros agitavam os seus turbantes ou os lenços de cores vivas que traziam até que o barco ficou como um vulto negro no mar.
Mas, ao pino do sol, quando as toldas estalavam á luz caustica, viramos da nau que uma almadia os demandava e, atracando, logo desembarcaram, com gravidade, dois homens, postos com muita riqueza sendo um d'elles magnata da corte melindana e outro o caciz da mesquita e, recebidos com todas as deferencias, com muita galhardia deram conta da embaixada que traziam, principiando por entregarem ao Gama, como prova de alliança, o regio annel que do soberano levavam, assegurando bôa hospedagem em terra com as honras que merecia.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)COELHO NETO, Henrique. A descoberta da Índia. Rio de Janeiro: Laemmert, 1898. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43340 . Acesso em: 30 abr. 2026.