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#Contos#Literatura Brasileira

A Partida

Por Coelho Neto (1897)

- Perto daqui nasceu – e os céus festejaram o seu natal – um menino, filho de pobres, vindos de terras longínquas. Ainda lá está no mesmo tugúrio, ao colo da mãe, que é uma linda moça, sob a guarda de um ancião venerável. É bem perto daqui, na caverna do outeiro sobre a qual paira e brilha a estrela alada que apareceu no céu.

Levantaram-se os três homens – o pastor saiu da tenda e, estendendo o braço na direção do outeiro, disse: - É ali, sob a estrela.

- Deve ser, disse o negro. E os dois outros concordaram. E, despedindo o pastor com uma bolsa de moedas de ouro, ficaram de pé, em silêncio, contemplando adorativamente a estrela que resplandecia.

ADORAÇÃO DOS MAGOS

Ao dealbar tronaram as buzinas e a caravana moveu-se em direção à caverna. A grande estrela ainda luzia no céu.

Os magos seguiram à frente nos dromedários e, em torno deles, nitiam (1), caracolavam os ginetes dos cavaleiros com que os seus telizes dourados, os seus caparações (1) de púrpura.

Quando a turba defrontou com a caverna todos os homens apearam e, respeitosamente, com humildade de servos, deixando no limiar os papuzes (1) marchetados, os magos penetraram zumbridos (1), como se fossem os rastos, levando nas mãos, devotamente, as páreas significativas.

Recebeu-os o patriarca e, como a Virgem se levantasse, com Jesus ao colo, os três homens prostraram-se de joelhos, descobrindo-se, depondo os turbantes e, inclinando a cabeça, ficaram um momento em veneração silenciosa.

O primeiro falou oferecendo a mirra.

- Homem, filho de Deus, a árvore do deserto deu do seu trono a resina que te ofereço; o seu perfuma é uma força que se opões à destruição da carne: eterniza o corpo como a virtude eterniza o espírito. O segundo inclinou-se com um escrínio cheio de ouro:

- Rei, das minas, onde fervilham os veios rutilantes, deram a poeira que te ofereço: ouro, símbolo do poder, chama fria da terra. Tudo ele vence: a miséria e a própria virtude. Desoprime e escraviza, redime e perverte, é o bem e é o mal. Nas mãos mumificas é luz que aclara e salva; nas mãos cruéis é chama que consome. O negro falou por último com uma patena de incenso:

- A árvore instila a lágrima que recende, lágrima que, ao lume, se converte em fumo e evola, demandando o céu, como homenagem de terra.

Como lágrima, é uma concentração; como aroma, é uma oblata. É o incenso com que se glorificam os deuses. É a oferenda das terras negras ao Deus que redime.

Gente, que afluíra à caverna, pastores e seareiros, mesteirais, velhos, mulheres e crianças das arribanas próximas entraram e, diante da palha humilde, toda a grandeza e toda a humildade confraternizaram e também o sol, como enviado do céu

, adorando o infante da misericórdia que baixara para cumprir as profecias trazendo aos homens a religião do amor.

E Maria, deslumbrada, sem ouvir as vozes glorificadoras, olhava, contemplava, adorava o pequenino filho.

O sol cercou-se de esplendor e a Virgem, de pé no meio da turba, com Jesus ao colo, era o puríssimo altar sobre o qual se mostrava às gentes o divino perdão.

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