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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

A cidade dormia. Começavam a varrer as ruas. Densa nuvem de poeira empanava o brilho dos lampiões e, dentro dessa bruma espessa, de um tom alourado, moviam-se homens cantando e atirando vassouradas: carroças rodavam parando de quando em quando. Raras mulheres, debruçadas às janelas, cochilavam. Tílburis passavam à disparada e os dois, em passos apressados, seguiam cosidos aos muros, com os lenços à boca. Apitos trilaram ao longe e, com estrépito sonoro, os soldados da ronda passaram a toda brida através da poeira como cavaleiros fantásticos. Vinham rapazes cantando em vozeirão atroador.

Livrando-se da poeirada, os dois moderaram o andar e Ruy Vaz, queixandose da vida que levava naquela casa, onde mal podia trabalhar, à falta de conforto, quis saber onde morava o estudante. Estava provisoriamente em um cômodo, no Estácio de Sá, mas pretendia tomar todo o segundo andar de uma casa na rua Formosa, que lhe oferecera uma velha viúva por preço vantajoso, com pensão. O romancista deteve-se e, encarando o estudante, perguntou:

— Conheces os cômodos?

— Conheço: sala de frente com duas janelas para a rua e uma para o telhado, alcova, sala de jantar, outra alcova e um mirante sobre o telhado.

— E pensão?

— Sim, com pensão.

— Por quanto?

— Eu tratei para dois: duzentos mil réis.

— Isso é um achado! E se morássemos três? — aventurou o romancista.

— Posso falar à viúva.

— Para quê? Depois de lá estarmos fala-se: é questão de mais um talher à mesa. Tens mobília?

— Alguma.

— E o outro? Quem é?

— Um estudante de Medicina, meu amigo, primo deste Duarte.

— Um alto, magro, de olhos tristes: Toledo, creio.

— Esse mesmo.

— Conheço muito. — um excelente rapaz. Vamos viver magnificamente. Quando fazes a mudança?

— Vou amanhã falar à mulher e, depois de amanhã, pretendo estar instalado, mesmo porque ando com idéias de trabalho. Tenho uma peça pronta e um romance esboçado.

— Depois de amanhã que dia é?

— Sábado.

— Magnífico! Vai lá falar à mulher e depois de amanhã mudamo-nos. Vozes atroaram o silêncio e uma célebre trepidação de rebanho em marcha fez com que os rapazes parassem colando-se à parede e logo dois campeiros surgiram, a cavalo, estalando chicotes, cantarolando e, em seguida, uma boiada a trote, os animais muito juntos, em bolo, silenciosos. Os grandes chifres entrebatiam-se e homens atiravam os cavalos à calçada ou passavam por entre os mansos animais, bradando, como nos campos: "Ehôo!... toca! Junta... êeh!" E a manada seguia e perdeu-se na poeira dourada de onde apenas vinham os gritos dos guieiros.

— É o bife.

— Para onde vai isso?

— Para Niterói, creio eu. Um bêbado resmungava cambaleando, às guinadas. Ouviram tinidos de campainhas e uma tropa de burros desfilou, sacolejando serões, a caminho do mercado.

Vou-me embora... Vou-me embora!

É mentira, não vou não...

Se eu vou m'embora, faceira, Deixo aqui meu coração.

Cantava languidamente o tropeiro escarranchado na bestinha viageira, puxando a récua.

— Pleno sertão.

— É verdade. No Campo estava um quiosque aberto; o romancista aproximou-se e, falando, com intimidade, ao homem, pediu uma vela. Encostados às grades do parque dois sujeitos discutiam chuchurreando o café em canecas de louça e uma negra, andrajosa e trôpega, com o peito ossudo descoberto, vacilando tropeçar na barra enlameada do vestido, com a baba a escorrer-lhe da boca, ia de um a outro mastigando palavras, atirando gestos moles, risonha, de olhos quase fechados.

— Vamos?

— Vamos. Seguiram. À porta da casa o romancista despediu-se:

— Então até amanhã.

— Sim, até amanhã, no Cailtau, às três, para combinarmos.

— Ó diabo! — exclamou Ruy Vaz procurando e escarafunchando nos bolsos.

— Que é?

— Não comprei aldraba.

— Que aldraba?

— Uma bomba. É com uma bomba que bato à porta, porque o meu senhorio entende que devo recolher-me às oito da noite e ordena aos criados que me deixem ficar à porta até a hora d'alva, batendo. Com o estouro da bomba no saguão é pronto: acodem logo. Hoje já sei que vou ver a aurora. Até amanhã, ou antes: até logo.

— Até logo! E Anselmo ia seguindo quando ouviu estrondo formidável como de um desabamento; voltou-se assustado: Que é isso?

— Estou acordando o Cérbero. E, com uma grande pedra, o romancista batia fazendo estremecer o pesado portão. O estudante já ia longe e ainda ouvia as tremendas pancadas que ressoavam longamente no silêncio.

Cabisbaixo, cigarro à boca, Anselmo caminhava a passo, contente daquele triunfo. Abrira-se-lhe, enfim, a porta ebúrnea do ideal, ia entrar na ventura, na grande

vida espiritual, entre artistas: poetas e prosadores, estatuários, músicos, pintores, a legião augusta dos que eternizam o sonho... Sombras andavam-lhe em torno — rapazes e raparigas, lá iam em surdo deslize, passavam, perdiam-se. Bem os conhecia, eram eles: Rodolfe, Marcel, Coline, Schaunard, ouvia o riso de Mimi, a tosse de Francine, o alarido alegre do café Momus. E seguia alheado do real, através do silêncio, raro em raro encontrando um soldado, um ébrio aos cambaleios ou retardatários que recolhiam sonolentos.

(continua...)

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