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#Contos#Literatura Brasileira

Uma Tragédia no Amazonas

Por Raul Pompéia (1880)

Uma escrava, a única que havia na fazendola, horrorizada à vista do cadáver do senhor, fugira dentre os companheiros, que não notaram o seu desaparecimento senão quando, terminado tudo, quiseram abandonar o teatro de seus crimes.

— Fujamos! exclamou então um negro. Mariana (a escrava) foi denunciarnos!... Eu a vi correr para S. João do Príncipe. Fujamos!

Os escravos, sem perda de tempo, dispersaram-se todos, buscando um refúgio na mata.

Em alguns minutos, porém, viram-se cercados, agarrados e manietados por uma multidão de pessoas.

O subdelegado de polícia, avisado pela escrava, assim os prendia auxiliado por vários paisanos. A prisão não se efetuou sem luta. Houve até ferimentos e a infeliz Mariana foi morta pelas facas dos criminosos.

Deixando os presos sob a vigilância de alguns homens, o subdelegado tomou um caminho que, segundo as indicações da escrava, o levaria até o lugar do crime, e aí chegou de fato e pôde descobrir todos os sinais dos homicídios narrados pela denunciante.

Pouco depois da meia-noute entravam em S. João do Príncipe o subdelegado, os presos e os paisanos, vindo quatro destes com os fardos preparados pelos saqueadores da fazendola de que já nada restava mais que fumegantes cinzas.

Por falta de mais conveniente prisão, foram os criminosos encerrados numa casa, que devia guardá-los provisoriamente.

No dia seguinte foi o subdelegado visitar os presos.

Qual não seria o seu pasmo quando, ao penetrar na prisão, encontrou-a vazia?!...

Os assassinos tinham se evadido. Um buraco no teto de palha e o barro da parede quebrada eram os vestígios da fuga.

CAPÍTULO XII

ALGUMAS EXPLICAÇÔES

Era simples o que se tinha passado. Os presos, logo que perceberam que ninguém os vigiava, trataram da evasão. A solidez das paredes e portas, em que confiara o sub-delegado, havia de zombar de seus esforços, caso quisessem arrombá-las, só o teto de palha oferecia-lhes possível saída. Uma circunstância opunha-se, todavia, à fuga dos negros por esse lugar. O teto era alto. Lembraram-se eles, porém, de fazer de uma escada para alcançarem os outros as vigas em que descansava a palha. Assim fizeram. Sobre os ombros de um negro vigoroso trepou um crioulo. Com uma das mãos segurou-se a uma viga, com a outra afastou a palha, fazendo no teto uma abertura, por onde enfiou a cabeça. Ainda não rompia a madrugada. Os arredores da casa estavam desertos. Era a hora da fuga. O crioulo deixou-se escorregar pela face exterior da parede e saltou no chão. Depois dele os seus seis companheiros saíram também, sendo o que servira de degrau guindado pelos outros. Estavam de novo livres. Com toda precaução arredaram-se do povoado. Passando por um pardieiro abandonado, distinguiram dentro dele um monte de objetos que a escuridão impedia de reconhecer. Apalparam-nos. Eram armas, roupas, mantimentos, isto é, tudo o que fora transportado da fazendola pelo subdelegado.

Feliz achado! Os fugitivos aproveitaram-se dele e bem munidos, embrenharam-se no âmago da mata virgem.

Cada um desses escravos tinha o peito cheio de ódio, de um ódio criado por longos dias de escravidão pesada, de um ódio ardente que só o sangue resfriaria. O de seu desgraçado senhor e o do feitor não lhes bastavam. Queriam mais!... E, por uma evolução efetuada insensivelmente no seu espírito, voltaram toda a sua sanha contra o subdelegado.

Julgando-o apenas culpado de algumas violências, empregadas para prendê-los, condenavam-no contudo os negros a expiar todos os excessos praticados em outros tempos contra eles pelo fazendeiro. Não haviam ainda saciado de todo o seu desejo de vingança!

Procuraram a morada do subdelegado. Acharam-na. Encetaram então uma perseguição atroz, com que feriam essa vítima enquanto esperavam um momento propício para assaltando-lhe a casa, trucidarem quem nela estivesse. Alta noute um grupo confuso de sombras surgia da floresta. Se algum raio de lua caía sobre essas sombras, reluziam ferros. Como uma coorte de serpentes avançavam arrastando-se até a habitação do subdelegado. Aí devastavam tudo. Matavam o gado que dormia no curral, roubavam animais, destruíam plantações e retiravam-se depois para os antros tenebrosos dos bosques.

Assim eram as excursões dos negros.

Se o subdelegado, em quem já terá o leitor reconhecido Eustáquio, se Eustáquio, aterrorizado por essa perseguição misteriosa, tomava providências mais sérias, os malfeitores suspendiam-na e se ocultavam. Reapareciam depois mais terríveis e audaciosos. As primeiras perversidades, faziam-nas de noute, passaram a cometer crimes à luz do sol.

Emboscados à beira da picada de comunicação entre S. João do Príncipe e a morada de Eustáquio, viram aproximar-se um escravo deste. Vinha do povoado. Deixaram-no passar, mas esfaquearam-no pelas costas. No mesmo lugar assassinaram pouco tempo depois um pobre soldado de polícia.

Na realização deste último atentado perderam um companheiro. Esse fato fê-los desanimar e voltar sua atenção para empresas de menos perigos e mais proveitosas deixando o subdelegado em paz.

(continua...)

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