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#Contos#Literatura Brasileira

As joias da Coroa

Por Raul Pompéia (1882)

O particular subiu de um pulo as escadas do palácio e entrou na sala do armário, na ocasião mesmo em que o mordomo perguntava por ele.

Entretanto, o boato do roubo se espalhava, e toda a gente da quinta agrupava-se sob as janelas encontradas abertas, ou procurava entrar no palácio para ver com os próprios olhos o arrombamento do móvel.

— O que aconteceu, sr. mordomo? — perguntou o particular, logo que respirou...

— Veja este armário arrombado!

O particular sentiu que ia cair e agarrou-se ao armário de que se aproximara, trêmulo, mais morto que vivo.

O silêncio dos circunstantes deixou que se lhe ouvisse um grito surdo:

— Roubaram as jóias!

O mordomo amparou o pobre homem:

— O que diz? — perguntou com susto.

— Roubaram as jóias!... Aqui é que elas se guardam, antes de ir para a burra... Eu sabia que o duque ia mandar as jóias, como sempre faz, quando vai com a duquesa a alguma reunião donde tem de seguir para Anatópolis... A culpa é minha, que retirei-me do palácio antes de receber o criado que devia chegar com as jóias...

Estas palavras, pronunciadas a meio pelo particular, deixaram todos aterrados.

— É uma desgraça! — repetia o mordomo. — É uma desgraça!

— Estou perdido! — clamava o particular. — Levaram o colar da sra. duquesa... Vou verificar que jóias faltam na burra da coroa...

A burra chamava-se da coroa, não sabemos ser por ter na porta uma placa em forma de brasões, se por guardar uma maravilhosa coroa do duque cravejada de brilhantes, emblema da família Bragantina. Nessa burra guardava-se o que os duques possuíam em ouro e pedrarias. Por um dengue de vaidade fidalga estas riqiezas não se diziam pertencentes ao duque ou à duquesa, mas simplesmente à coroa.

O particular, acompanhado pelo mordomo, foi ao gabinete onde estava colocada a burra e examinou as jóias da coroa.

O resultado do exame foi desanimador. Faltavam os melhores adereços da duquesa, faltavam diversas condecorações do duque, e entre as jóias da marquesa d’Etu, que estavam guardadas na burra da coroa talvez porque o marquês a considerava mais segura do que a sua, faltava um rico anel de brilhantes...

O particular ficou atordoado. Aquilo era uma catástrofe. Quando ele e o mordomo reapareceram na sala do armário, os criados viram-lhe os olhos rasos de lágrimas.

Entristecia ver-se o pobre homem.

Estava desvairado; não sabia para onde voltar-se. Sofria como se visse no remorso do seu descuido uns vigamentos de forca.

Ficou prostrado em poucos minutos, como se houvesse passado por uma crise de febre.

O mordomo, que resistia melhor ao peso da responsabilidade que lhe cabia, teve energia para tomar algumas providências.

Mandou imediatamente um recado ao palácio dos Bananeiras, narrando a descoberta do roubo e pedindo ao marquês d’Etu que mandasse dizer que procedimento devia ter em tais emergências; mandou outro portador ao palacete do marquês de *** a fim de, no caso de não haver ainda o duque partido para Anatópolis, dar-lhe notícia do ocorrido.

O primeiro portador chegou ao palácio com o marquês d’Etu, que quisera acompanhá-lo.

O segundo voltou dizendo que o sr. duque resolvera, por se achar um pouco incomodado, adiar a partida para Anatópolis, e estaria em Santo Cristo antes do meio-dia. À vista disso, julgara inútil incomodar o amo com a notícia.

O mordomo aprovou a iniciativa do criado, principalmente porque se achava em Santo Cristo o marquês d’Etu e substituiria perfeitamente o duque, para resolver conforme o caso exigia.

O portador que fora ter com o sr. d’Etu não pudera informá-lo, por não saber das jóias que faltavam. Um terrível pressentimento, porém, avisou ao príncipe dos cortiços de que ele também fora vítima dos ladrões.

Mandou aprontar, com a maior brevidade, o carro, meteu-se nele, mal disfarçando a meia toillette de manhã, e foi chegar à quinta de Santo Cristo ao mesmo tempo que o portador que o visitara.

A entrada do marquês no palácio do pai foi como a de uma bala na torre de um couraçado.

Sem encontrar degraus nem dificuldades, o marquês chegou à sala do armário como que de um salto. Os que aí estavam, assustaram-se com a sua entrada. Passou-lhes repentinamente pelo cérebro a idéia de um assalto no palácio.

Não era, felizmente, coisa tão medonha.

Quando, depois de um estrondo, o reposteiro da entrada ergueu-se bruscamente, não foi uma horda vandálica que invadiu o salão, foi simplesmente o filho do duque de Bragantina.

— Roubaram-me alguma jóia? — exclamou ele, caindo sobre o mordomo como uma onça.

— Sim, sr. marquês — respondeu o mordomo, com a voz tímida e recuando instintivamente.

— Que foi?... — rugiu o marquês. — O que me roubaram?

— Um anel de brilhantes!

— Um anel de brilhantes! — explodiu o fidalgo.

— Sr. marquês!... — ponderou o mordomo. — É cedo talvez para V. Exa.

incomodar-se.

— Por quê?... Por quê?... — interrogou furioso o sr. d’Etu.

— Porque eu falo unicamente por suposições. — Então como tem a ousadia?!...

— Perdão... mas, suposições bem fundadas...

— Explique-se! Não me enfureça!

— Perdoe-me, vossa excelência, se o desgosto...

(continua...)

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