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#Contos#Literatura Brasileira

14 de Julho na roça

Por Raul Pompéia (1881)

Eu estava horrorizado. E ela dizia a brilhante catadupa de blasfêmias com aqueles mimosos lábios, que eu supusera feitos para o murmúrio doce das santas confidências da virtude e do amor...

Como era horrível a lagarta amarela do ouro, a sair por entre as rosas daquela boca!

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Diante de nós, lá embaixo, no jardim, haviam acumulado a um canto uma grande porção de estrume.

Sobre o estrume, uma pomba branca, de lindos pés sangüíneos e sangüíneo bico, revolvia com as unhas o monte infecto, procurando alimento...

Fez-me estremecer o epigrama da casualidade.

Raul Pompéia

 TONA D'ÁGUA

I

Há crepúsculos que parecem desmaios. Olha-se para cima e vê-se o firmamento pálido; o ocidente apresenta a expressão vaga do olhar da criança que se faz mulher e que sofre a transição. Parece que uma nota de espanto percorre a natureza... Segue-se depois a noite, a escuridão, o desfalecimento da luz.

A alma compreende que a noite é uma ausência. Vai além: apalpa esta ausência. É deleitoso. Tem-se os olhos abertos e sonha-se. Os espetáculos são panoramas de fumaça; e sempre nessa confusão de escuros e meias sombras, destaca-se um ponto. Quem vê este ponto é o coração. Perguntem-no aos amantes.

Rosália estava vendo um crepúsculo assim; e esperava ansiosa pela noite... à praia.

II

Resvala a canoa, macio como a nuvem à flor do céu... Rosália já está com ele. Só quem os vê é a noite. O remeiro canta distraído uma barcarola por trás do estofo que os encobre. E vão...

III

Trocam olhares que os prendem como elos de doces cadeias. Apertam-se as mãos e sentem que possuem alguma coisa de comum que lhes circula pelo corpo deliciosamente. Parece-lhes que possuem o mesmo sangue, porque possuem o mesmo fogo, vivificando a dormência que os acalenta. São dous que se amam de um só amor; mas conhecem-no apenas, porque se sabem amantes e o amor exige duplicidade.

IV

A quilha do barquinho rasga sem ruído a toalha alisada do mar e os gravetos flutuantes vão lhe ficando na esteira. Por essa hora, vai a imergir no ocaso um estilhaço de lua que dissolve ainda pelas trevas uma claridade morta. Rosália vê à proa do barco uma pequena lâmina. Vê não exprime bem. Os olhos passam pelo objeto e não atentam. Mas a canoa vai e vai...

Rosália foge à casa paterna, nos braços do amante.

V

Pela segunda vez depara com o ferro; mas agora com atenção. Aquele aço não brilha, entretanto cai sobre ele o luar. A jovem estende languidamente a mão e o segura. Violento palpita-lhe o coração.

Pressentimento... Ela fita profundamente o semblante amoroso do companheiro e murmura:

- Sangue?!...

O mancebo faz um movimento brusco. A canoa estremece. O remeiro vai cantando...

O moço, que se afastara da jovem, pega-lhe nervosamente nos formosos braços, apenas velados por brandos filós e diz-lhe, com os dentes cerrados, fora de si:

- Teu pai vinha matar-te, desgraçada!

E Rosália atira-se sobre ele e solta um grito de furor:

- Assassino, eu te amo!

Raul Pompéia

AMOR DE INVERNO

Ora, para que havia de dar-me a mania!... Lembrei-me de amar uma velha!...

A gente chega a saciar-se de tudo, até do vinho quente da juventude. Em amor, uma das cousas apreciadas é o amor que custa; pelo menos, o amor que precisa que o busquemos para vir: mil vezes mais apreciado que o amor que vem ao nosso encontro. Maomé, com certeza, não se arrependeu de ir até a montanha. Ora, a juventude é assim. Tem o defeito, em amor, de vir ao nosso encontro. Há o instinto, nos seios rijos da virgindade, que os impele a esmagar-se, amassar-se, emolir-se, de encontro ao peito que se lhes acerca.

A grande idade é já esquiva.

O verão passou. Tem uns dias de sol, como o inverno os tem. Mas, são sugestões tranqüilas da saudade. Os sóis, Os grandes sóis passaram.

Quem sabe? Haverá, talvez, um vivo prazer em ir a gente abrir uma réstea estival de claridade no firmamento nublado desses dias! Espera, S. Medardo, padroeiro dos dias úmidos... guarda o aguaceiro um pouco... que eu vou mandar àquela pobre, de presente uma nesgazinha de bom tempo...

Tomei a sério a minha intenção.

Logo ao terceiro dia, aliás à noite, achei o meu ideal.

Velha, velha, velha, velha...

Imaginem um belo ideal de cabelos brancos, curvo e tremulo, de carnes tenras entre galantina e faisandé.

Dous olhos negros brilhavam como alcaparras em cima daquela iguaria branca.

A minha atenção fervorosa atraiu a dela. Daí a Pouco, seguíamos, trocando olhares. Os dela de curiosidade, naturalmente.

Mais de perto, com a iluminação pública pude ver-lhe dous cachinhos em espiral gamenha de saca-rolhas, que lhe faziam voltas de S aos lados da fronte.

Com a vista firme, percebi que aqueles caracóis prolongavam-se sutilmente pela velha adentro; enrolavam-se num sorriso que ela tinha nos lábios e iam até à alma, envolvendo-a como a cauda cansada de um velho demônio aposentado.

Abordei-a.

- Não vê que sou respeitável? replicou ela com certa gravidade benevolente.

Respeitável, até veneranda... disse eu comovido, recuando um cumprimento.

(continua...)

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