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#Ensaios#Literatura Brasileira

Os Sertões

Por Euclides da Cunha (1902)

Começou-se a sentir o império de uma situação mais incômoda que a anterior, da Favela. Ali havia, ao menos, a esperança do assalto e da vitória; desprezava-se ainda o adversário, que só revidava de longe, entre ciladas. Agora, nem este engano restava. O jagunço ali estava — indomável — desafiando um choque braço a braço. Não o atemorizara a proximidade dos contendores, profissionais da guerra, que lhe enviavam as gentes das “terras grandes". Eles estavam-lhe, agora, ao lado, a dois passos, acotovelando-o, acolhidos sob os mesmos tetos de taipa e aumentando, de repente, em poucos minutos, de 3 mil almas, a população do lugarejo sagrado. Mas não lhe haviam modificado sequer o primitivo regímen. Ao empardecer do dia, o sino da igreja velha batia, calmamente, a Ave-Maria; e, logo depois, do seio amplíssimo da outra, ressudava o salmear merencório das rezas...

Toda a agitação do dia fora como incidente vulgar e esperado.

BAIXAS

No entanto, a expedição atravessara violentíssima crise. Tivera cerca de mil homens, 947, entre mortos e feridos, e estes, com os caídos nos recontros anteriores, reduziam-na consideravelmente. Impressionavam-na, ademais, os resultados imediatos do acometimento. Três comandantes de brigadas, Carlos Teles, Serra Martins e Antonino Néri, que viera à tarde com a 7.ª, estavam fora de combate. Numa escala ascendente, avultavam baixas de oficiais menos graduados e praças. Alferes e tenentes haviam, com desassombro incrível, malbaratado a vida em toda a linha. De alguns citavam-se, depois, os arrojados lances: Cunha Lima, estudante da Escola Militar de Porto Alegre, que, ferido em pleno peito numa carga de lanceiros, concentrara os últimos alentos no último arremesso da lança caindo, em cheio, sobre o inimigo, feito um dardo; Wanderley, que, precipitando-se a galope pela encosta aspérrima da última colina, fora abatido ao mesmo tempo que o cavalo no topo da escarpa, rolando por ela abaixo em queda prodigiosa, de titã fulminado; e outros, baqueando todos, valentemente — entre vivas retumbantes à República —, haviam dado à refrega um traço singular de heroicidade antiga, revivendo o desprendimento doentio dos místicos lidadores da média idade. O paralelo é perfeito. Há nas sociedades retrocessos atávicos notáveis; e entre nós os dias revoltos da República tinham imprimido, sobretudo na mocidade militar, um lirismo patriótico que lhe desequilibrara todo o estado emocional, desvairando-a e arrebatando-a em idealizações de iluminados. A luta pela República, e contra os seus imaginários inimigos, era uma cruzada. Os modernos templários, se não envergavam a armadura debaixo do hábito e não levavam a cruz aberta nos copos da espada, combatiam com a mesma fé inamolgável. Os que daquele modo se abatiam à entrada de Canudos tinham todos, sem excetuar um único, colgada ao peito esquerdo em medalhas de bronze, a efígie do marechal Floriano Peixoto e, morrendo, saudavam a sua memória — com o mesmo entusiasmo delirante, com a mesma dedicação incoercível e com a mesma aberração fanática com que os jagunços bradavam pelo Bom Jesus misericordioso e milagroso...

Ora, esse entusiasmo febril, à parte as precipitações desastrosas decorrentes, no dia 18 de julho foi a salvação...

Uma tropa exclusivamente robustecida pela disciplina, que se desorganizasse daquela maneira, estaria perdida. Mas os soldados rudes, em cujo ânimo combalido penetravam desalentos e incertezas, imobilizaram-se sob o hipnotismo da coragem pessoal dos chefes, ou dominados pelo prestígio de oficiais que, gravemente feridos, alguns mal sustendo a espada, avançavam em cambaleios para as linhas de fogo — moribundos e desafiando a morte.

Ficaram de algum modo sitiados entre eles e os jagunços.

NOS FLANCOS DE CANUDOS

(continua...)

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