Por Euclides da Cunha (1902)
Mas foi lúgubre. Dez batalhões despencaram, de mistura, pelos cerros abaixo. Atulharam as baixadas. Galgaram depois as ladeiras que as apertam. Coalharam o topo das colinas; e desceram-nas de novo, ruidosamente, em tropel — para novamente investirem com as que se sucedem indefinidamente por toda a banda — num ondear de vagas humanas, revoltas, desencadeadas, estrepitosas, arrebatando nas encostas, espraiando-se nas planuras breves, acachoando um tumulto nos declives, represando-se comprimidas nas quebradas...
Os jagunços em roda fulminavam-nas, invisíveis, recuando talvez, talvez concentrando-se-lhes às ilhargas, talvez envolvendo-as...
Nada podia conjeturar-se. Os soldados começaram, certo, desde logo a conquistar bravamente o terreno. Vingavam morros sucessivos. Pisavam de momento em momento à borda de trincheiras, e no fundo destas os cartuchos detonados e ardentes delatavam-lhes a fuga recente do inimigo. Mas não sabiam no fim de algum tempo a direção real do próprio ataque que realizavam. A réplica dos adversários, por sua vez, variando em todos os rumos, parecia adrede disposta a desnorteá-los. Apenas no meio da ação ela se patenteou — uniforme e mais bem definida — na extrema direita, onde era lícito esperá-la tão constante, sugerindo o pensamento de algum vigoroso ataque de flanco que, se fosse impulsionado com energia, lançaria inevitavelmente os sertanejos, triunfantes, dentro dos batalhões desmantelados. Viu-se, porém, que aqueles realizavam apenas uma demonstração ligeira, deixando escapar a oportunidade para acometimento sério. Revelou-o o esquadrão de lanceiros num reconhecimento temerário. Precipitando-se velozmente naquela direção, deu de chofre, no tombar de uma encosta, com cerca de oitenta jagunços. Estavam dentro de um curral, de onde atiravam de soslaio sobre a tropa. Dispersou-os a pontaços de lança e a patas de cavalos, numa carga violenta. Subiu depois a galope, perseguindo-os, por uma ladeira menos abrupta, até ao alto de um dilatado platô, em rechã distendida para nordeste. E o arraial, a menos de trezentos metros, apareceu-lhe inopinadamente, na frente...
Neste comenos, por sua vez, ali chegavam atropeladamente alguns pelotões de infantaria.
A situação era culminante.
À fímbria das primeiras casas esparsas num recosto fronteiro a cerca de trezentos metros das igrejas, oferecia-se aos combatentes área mais desimpedida e plana. Estes, porém, ali chegavam em grupos e sem ordem, mal repartidos na larga divisão das brigadas: a 5.ª marchando pela direita, a 3.ª e a 4.ª pelo centro e a 6.ª, que entrara por último na refrega, pela esquerda, perlongando o rio.
Era o momento agudo do combate.
Naquela eminência, a tropa, sobretudo do centro para a direita, completamente exposta, estava dominada pelas igrejas e de nível com a parte alta do arraial, que se alteia para o norte. E deste último ponto até ao extremo da praça, a oeste — abrangendo todo o quadrante em longura mínima de dois quilômetros, caiu-lhe em cima, convergente, uma fuzilaria tremenda. As brigadas, entretanto, avançaram ainda. Mas incoerentemente, num dissipar improdutivo de valor e de balas, sem a retitude de um plano, sem uniformidade na marcha. No torvelinho das fileiras sobrevinham paralisações súbitas. Cada soldado tendo levado somente 150 cartuchos nas patronas gastara-os logo. De modo que se tornou necessária a parada de batalhões inteiros — em pleno conflito e na eminência completamente batida — para se abrir a machado os cunhetes de munições e distribuí-las.
Além disto, completando os tiroteios nutridos que irrompiam do arraial, onde cada parede se rachava em seteiras, atrevidos guerrilheiros afrontavam-se, de perto, com os assaltantes, alvejando-os à queima-roupa, abrindo-lhes, em descargas esparsas, claros assustadores. Batiam-nos ainda pelo flanco direito. O rarefeito dos estampidos denunciava, naquela banda, raros franco-atiradores. Mas estes, embora diminutos, tolhiam, pelo rigor das pontarias, o passo a pelotões inteiros. Di-lo episódio expressivo.
TOCAIAS DOS JAGUNÇOS
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CUNHA, Euclides da. Os Sertões. 1902. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16626. Acesso em: 10 jun. 2026.