Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Sermões#Retórica

Sermão da Terceira Quarta-Feira da Quaresma

Por Padre Antônio Vieira (1670)

122. Primeiramente me parece que são merecedores de um não muito claro e muito seco certo gênero de alvitreiros, que, inventando e oferecendo novos arbítrios e indústrias de acrescentar o erário ou fazenda real, juntamente dizem – e aqui bate o ponto – que eles hão de ser também os executores, e para isso pedem meios e jurisdições. Nasceu cizânia, diz Cristo, entre a seara de um pai de famílias, o que vendo os criados, vieram lago mui zelosos encarecendo aquela perda da fazenda de seu amo, e oferecendo-se a ir mondar a seara e arrancar a cizânia: Vis, imus et colligimus ea? Quereis, senhor, que a vamos colher (Mt 13,28)? – Colher, disseram, e não arrancar, porque estes zelos e oferecimentos sempre se encaminham à colheita. Respondeu o pai de famílias, sem lhes agradecer o cuidado. E que respondeu? Ait illis: Non. Disse-lhes: Não (Mt. 13,29). Assim se há de responder com um não muito seco e muito resoluto a semelhantes propostas. O pai de famílias entendia melhor da lavoura que os criados. Os criados representavam a utilidade, e o amo reconhecia as inconvenientes; eles diziam que queriam mondar a seara, e ele reconheceu que haviam de arrancar o trigo: Ne colligentes zizania, eradicetis simul et triticum (Mt. 13,29). Nem se há de fazer o que quereis, nem o haveis de fazer vós: far-se-á a seu tempo, e fá-lo-ão os segadores, que é seu ofício, e o entendem: In tempore messis dicam messoribus.20 Quando os que não entendem as coisas, nem têm experiência delas, oferecem alvitres e se oferecem para os executar, sendo as utilidades só aparentes, as ocasiões intempestivas, e os danos certos – como ordinariarnente acontece – despida-os o pai de famílias a eles e às suas propostas, e diga-lhes um não muito resumido e muito claro: Ait illis: Non.

123. Em outras ocasiões de negar se costuma escusar um não com outro, e por que é modo muito ordinário e usado, não é bem que passe sem exame e sem censura. Negou Labão a Jacó o prêmio de sete anos de serviço, em que se concertaram, e em lugar de Raquel-que foi pior que negar – como quem paga com moeda falsa, lhe introduziu a Lia. Descobriu à luz do dia o engano, queixou-se Jacó a Labão de lhe não ter dado a Raquel: Nonne pro Raquel servivi tibi?21 E que satisfação lhe daria Labão, que quer dizer o cândido? Desculpou um não com outro não, dizendo que não era costume da sua terra casarem em primeiro lugar as filhas segundas: Non est in loco nostro consuetudinis ut minores ante tradmus ad nuptias (Gên. 29,26). É costume da vossa terra não cumprir o prometido? É costume da vossa terra enganar? É costume da vossa terra mentir? É costume da vossa terra faltar à justiça e à razão, e dar por escusa que não é costume? Passemos da terra de Labão à nossa. Em toda a terra, como demonstra Aristóteles, é lei natural que os sábios governem e mandem, e que os que menos sabem, obedeçam e sirvam. Em toda a terra é lei natural, confirmada com as civis, que os que forem mais eminentes em cada gênero subam aos maiores lugares e tenham os primeiros prêmios. Mas tira-se por exceção a nossa terra, na qual, para alcançar estes prêmios, e para subir a estes lugares, não basta a eminência dos talentos nem dos merecimentos, se falta certo grau de qualidade, bastando só esta qualidade sem outro merecimento nem talento, para pretender e alcançar, ou alcançar sem pretender, os mesmos lugares. E se os estrangeiros se admiram e pasmam de ver que os homens que eles e o mundo venera, não ocupem aqueles postos, responde-se a este não com outro não: Non est in loco nostro consuetodinis.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...1415161718...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →