Por Padre Antônio Vieira (1655)
Quomodo? Por que modo ou por que modos? Somos entrados no labirinto mais intrincado das consciências, que são os modos, as traças, as artes, as invenções de negociar, de entremeter, de insinuar, de persuadir, de negar, de anular, de provar, de desviar, de encontrar, de preferir, de prevalecer, finalmente de conseguir para si ou alcançar para outrem, tudo quanto deixamos dito. Para eu me admirar, e nos assombrarmos todos do artifício e sutileza do engenho ou do engano com que estes modos se fiam, com que estes teares se armam, com que estes enredos se tramam, com que estas negociações se tecem, não nos serão necessárias as teias de Penélope nem as fábulas de Ariadne, porque nas Histórias Sagradas temos uma tal tecedeira, que na casa de um pastor honrado nos mostrará quanto disto se tece na corte mais corte do mundo.
O maior morgado que houve no mundo foi o de Jacó, em que sucedeu Cristo: Regnabit iit domo Jacob.25 Sobre este morgado pleitearam, desde o ventre da mãe, os dois irmãos, Jacó e Esaú. Esaú tinha por si todo o direito, tinha por si a natureza e a idade, tinha por si o talento e o merecimento, tinha por si o favor, o amor, a vontade e o decreto, e a promessa do pai que lhe havia de dar a bênção ou a investidura. De maneira que de irmão a irmão, de homem a homem e de favorecido a favorecido, tudo estava da parte de Esaú e contra Jacó. Tinha da sua parte Esaú a idade e a natureza, porque ainda que eram gêmeos e batalharam no ventre da mãe sobre o lugar, Esaú nasceu primeiro. Tinha mais da sua parte Esaú o talento e o valor, porque era forte, robusto, valente, animoso, inclinado ao campo e às armas, e que com a aljava pendente do ombro, e o arco e setas na mão, se fazia temer do leão no monte, do urso e javali no bosque. Pelo contrário, Jacó: Habitabat in tabemaculis:26 nunca saía do estrado da mãe, mais para a almofada que para a lança, mais para as bainhas que para a espada. Finalmente Esaú tinha da sua parte o favor, o amor e o agrado, porque era as delícias da velhice de Isac, seu pai, a quem ele sabia muito bem merecer a vontade, porque quando vinha do campo ou da montaria, com a caça miúda lhe fazia o prato, e da maior enramada lhe dedicava os despojos. Este era Esaú, este era o competidor de Jacó, este era o seu direito, estes eram os seus serviços, este era o seu merecimento, estas eram as vantagens com que a natureza e a graça o tinham feito herdeiro sem controvérsia da casa de Isac. E contudo – quem tal cuidara? – Jacó foi o que venceu a demanda, Jacó o que levou a bênção, Jacó o que ficou com o morgado. Pois se o morgado por lei da natureza se deve ao primogênito, e Esaú nasceu primeiro; se o primeiro lugar, por lei da razão, se deve ao de melhor talento, e o talento e valor de Esaú era tão avantajado; se a vantagem e a maioria do prêmio, por lei de justiça, se deve ao maior merecimento, e os serviços de Esaú eram tão conhecidamente maiores e sem competência;27 se finalmente a bênção e a investidura do morgado dependia do pai, e o pai era tão afeiçoado a Esaú e lho tinha prometido, e com efeito lho queria dar, como foi possível que prevalecesse Jacó sem direito. Jacó sem talento, Jacó sem serviços, Jacó sem favor? Porque tudo isto pode a traça, a arte, a manha, o engano, o enredo, a negociação.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 15 ago. 2026.