Por Lima Barreto (1909)
Era assim sempre que ele falava ao encontrar-me. Tinha sempre atenções, pequenas delicadezas; tratava-me como se eu fosse um “doutor” de fato, com influência, inquirindo sobre os meus amigos e as minhas relações. Se me encontrava na rua, obsequiava-me o talento de que ele não tinha a mínima noticia. Quase sempre pela conversa, indagava das minhas amizades, das minhas relações; se eu era colega de F., se me dava com beltrano, se estudava isto ou aquilo. Eu respondia-lhe simplesmente, ingenuamente que não, que não conhecia ninguém a não ser o doutor Castro, o deputado. Ele não deixava transpirar nada, nem uma contração, nem uma ruga que fizesse descobrir como recebia essas minhas respostas; mas também em coisa alguma modificava o tratamento; continuava a ser o mesmo, o mesmo Laje da Silva, mesuroso, afável, informado e loquaz a seu jeito. Não sei o que esperava de mim, o certo é que, durante os meus primeiros dias no Rio, recebi dele as mais respeitosas homenagens, as maiores considerações. Embora ensoberbecesse a minha vaidade de colegial, continuava a sentir no padeiro muito de desonesto, de falcatrueiro, para me ligar inteiramente a ele. Evitava-o, fugia-lhe, mas não tinha coragem para lhe dar a entender francamente que não lhe queria amizade. Aceitava-lhe as homenagens, os refrescos, conversava, mas sempre com um pequeno medo de que ele me metesse nalguma embrulhada com a polícia.
Foi com grande surpresa que o avistei: supunha-o fora e não pude reprimir o espanto que isso me causara. Ele não se alterou; respondeu-me cheio de bonacheirice:
— É verdade, doutor... sim, não há nada que fazer... tudo por aí está explorado... Uma miséria! Já se colocou?
A pergunta desagradava-me e ele fazia-ma sempre. Ensaiei diversas respostas e por fim respondi-lhe capciosamente:
— Ainda não; mas dentro em breve, creio...
O Coronel Figueira, que falava quando entrei, desejoso de continuar a palestra interrompida, logo que percebeu acabados os cumprimentos, dirigiu-se a mim de supetão:
— Doutor, pode haver ladroeira na loteria?
Pensei um instante, mas sem encontrar base para uma resposta segura, respondi dubitativamente:
— Pode ser.
E logo o velho coronel, com a sua voz nasal e cheia, em que havia no momento uma
grande satisfação:
— Eu não dizia?... É, sim... Como não pode?
— Mas por quê, coronel?
Então explicou-me que discutia isso com Laje e como ele me soubesse um rapaz preparado, apelara para mim.
— Mas como pode haver ladroeira... É impossível... As rodas são examinadas, suspensas do solo... Se houvesse qualquer fio, dava-se logo com ele — não acha?
— Mas então, “seu” Laje, como explica que o “gato” possa ficar “preso” três meses?
— E a sorte, objetou Laje.
— Qual sorte, fez o coronel furioso. É bandalheira; é eletricidade ... Ninguém me tira disso. Olhe: há vinte dias sigo a “borboleta”... Dava sempre, agora não dá mais... Vejo os jornais, a Joaninha, a Chapinha, compro o Palpite, a Mascote, a Ronda — todos dão a “borboleta”. Jogo... “borboleta” não dá. Faça o favor, doutor, veja aqui o Jornal do Brasil.
Desdobrou com cuidado a folha popular e apresentou-me o lugar em posição conveniente. Eu não cogitava que aquele assunto pudesse apaixonar tão intensamente o velho coronel que me parecia ser um homem rico; mesmo não entendia daquilo, mas embora admirado e fora da matéria, prestei-me graciosamente:
— Procure, disse ele, à esquerda o número 154... Viu?
— Sim senhor.
— Junte o “peru”... Não é “peru” que está pintado?
— É... Mas como?
— Junte o “peru”.
— Como?
— Ora, some o “peru”, grupo 20.
— Ahn! 174.
— Inverta.
— 471.
— Qual! nada! 714, borboleta — não é? E sem esperar a resposta continuou: Está aí, o Jornal dá, a Gazeta dá também e o bicho não sai há vinte dias... O doutor não joga?
— Não senhor.
— Por quê?
— Não gosto; depois, é proibido.
— Proibido! A polícia! exclamou Laje.
— Não é isso, fiz eu vexado daquela minha confissão. Temo perder dinheiro.
— Ah, bom! Diga isso! Pela polícia, não; ela vive com os bicheiros... não serve pra nada, fique certo.
— Eu pensava que...
— Qual! Para o que foi feita não serve. Serve para perseguir, executar vinganças, como eu já fui...
— O senhor! dissemos os dois a um só tempo.
— Exato! eu! exclamou um tanto exaltado.
— Como!
— Ora, como?! Uma cilada... Vinha no trem, e, num dado lugar, um sujeito sentou-se a meu lado e pôs o seu chapéu-de-sol junto à janela. Eu viajava desse lado. Saltou e levou o meu, deixando o dele. Quando chegamos, entrou pelo trem um magote de políciais, prenderam-me, revistaram-me e foram dar com o tal chapéu cheio de notas falsas de cem mil-réis.
— Foi preso?
— Preso, só? Fui esbordoado, metido numa enxovia, gastei dinheiro... O diabo! E sabe por que tudo isso?
— Não.
— Porque eu apoiava a oposição lá no meu município... É isto a polícia, no Brasil... Eu posso falar: sou brasileiro... A polícia no Brasil só serve para exercer vinganças, e mais nada.
—Por que não processou as autoridades, “seu” Laje? perguntei.
— Qual, menino! você é muito ingênuo. Crê na justiça, ora!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1865 . Acesso em: 8 maio 2026.