Por Coelho Neto (1898)
Maria estava insensível—nem as suas roxas palpebras batiam. Julgando-a morta, Magdalena ajoelhou-se-lhe aos pés, chamou-a. A Virgem não fez o mais leve movimento — mas o coração batia.
Ó miscro coração ! Todas as forças da infeliz estavam nelle concentradas, em torno da magua. Toda a vida refugiara-se naquelle santuario do soffrimento : os soluços, as lagrimas, as deprecações, tudo lá estava, não havia passagem para o menor allivio.
Os que choram dispersam tormentos, os soluços arejam o coração. Maria tinha a Dôr trancada e ali estava apparentemente insensivel.
Era a superfície enganadora, a parede de um carcere dentro do qual o carrasco, lentamente, abafando todos os gritos, suppliciasse a victima.
Nem quando José e Nicodemos retiraram o cadaver da cruz a inieliz ponde soltar as lagrimas : olhava immovel e muda. E vagarosa, amparada por Magdalena e João, desceu a montanha seguindo o corpo amado, tão impassivel, d’olhos tão enxutos que só os que a levavam sabiam que ia ali a Dôr, a immensa, a inenarravel Dôr, tão grande que não cabia em queixas, em lagrimas, em soluços.
VII
Jesus encerrado no sepulcro
Era num horto, entre rosaes.
O silencio e a amenidade tornavam-no o ponto favorito dos passaros que por elle andavam esvoaçando de ramo em ramo ou pelo saibro, nos relvedos, á beira do rego por onde sempre discorria um fio d'agua.
Sycomoros robustos alargavam sombras repousadas e, contrastando com a belleza e com a fartura do sitio, uma rocha, escalvada e negra, toda cercada de cardos, avultava monstruosa e melancolica. No flanco fora cavado um jazigo, que pertencia a José de Arimathéa. Alli fôra deposto o cadáver do Martyr.
O perfume das essências funeraes embalsamava o ambiente : aroma triste, de morte, que commovia.
Caiados, os discipulos, que haviam acompanhado o corpo áquelle repouso, rodeavam a rocha, encostados aos troncos ou diante do sepulcro, ajoelhados, chorando.
A noite descia calmae estrelada. Cantavam cigarras e longe, como a Paschoa estava proxima, estrugiam vozes festivas, resoavam cymbalos.
Maria, sempre amparada pela Magdalena, quedara contemplativa ante o bruto rochedo. As lagrimas rebentavam-lhe dos olhos, os labios entreabriam-se-lhe deixando passar suspiros.
De repente, tocando a pedra, apalpando-a, murmurou :
— Tão fria!
— Que sentis, Senhora? perguntou João adiantando-se sollicito.
E ella, de novo, murmurou :
— Tão fria! E dizer que é tudo quanto me resta ! Toda a minha fortuna aqui jaz. Eu era tão venturosa que meus passos felizes abençoavam a terra; a minha alegria era uma claridade que alumiava. Nunca invejei! Que podia eu desejar mais neste mundo se o tinha, a Elle, meu Filho ? Contemplando-o, recordava todo o passado e era sobre a sua cabeça que meus olhos viam o futuro. Meu horisonte !
Quando o via vir pelos caminhos claros, dobrado de fadiga, o meu coração ficava tão contente como ficam as flores, depois de um dia de sol, quando o ar refresca annunciando o orvalho.
A sua. voz era a musica que embalava minh'alma e chamar-lhe Filho era para mim felicidade tamanha que, ainda na sua ausência, esse nome era o brinquedo dos meus labios. Ai!
de mim... A minha vida encravou-se na pedra!
E eu hei de andar sósinha, e hei de ouvir a outras rnãis aquillo que me não é dado dizer. Filho ! Filho ! Filho !
Este nome devia desapparccer da terra; para mim não existe, é uma palavra que findou, uma alegria que se extinguiu. Não sahirei, ninguem mais me verá.
Aqui fico, eu e a Morte, minha companheira. E que fez Elle ? Foi bom, amou, quiz ser generoso e aqui está para o sempre.
A Magdalena inclinou-se-lhe ao hombro segredando-lhe uma consolação :
— Resurgir, dizes. Ha de resurgir... E eu ? Cuidas que terei tanta força que espere tres dias, que passe todo esse tempo sem vê-lo, sem ouvi-lo ? Ainda que elle volte, ai ! de mim, não mais encontrará vivo o coração que o amou. Sinto que me desfaço em lagrimas. E tudo, em volta de mim, rejubila : os pássaros cantam, os ramos agitam-se e brilham estrellas no céu. Pois é possível que não saibam que morreu meu
Filho ? É possível ? Nos dias tristes toda a terra entristece e porque ha de a natureza ser indifferente á tristeza de uma alma ?
Rocha, agora és tu que o trazes, Elle jaz no teu seio, é teu Filho. Ai! de mim.
A Magdalena, posto que se conservasse ao lado da Dolorosa, mal ouvia as palavras que lhe sahiam dos labios. Não eram vozes, senão um sussurro tirado pela dôr como o murmulho das folhas á passagem do vento.
João, lembrando-se das ultimas recommondações do Mestre, tentou serenar o coração de Maria:
— Aquietai-vos, Senhora. Sois Mãi, é certo, e, por isso mesmo, mais do que todos deveis confiar na sua palavra. Elle veiu á terra conhecer a agonia humana, despiu-se da grandeza, divina e vestiu-se de soffrimentos.
De vós nasceu e chorou ao entrar na vida, sendo recebido pelo frio.
Crescera na pobreza, fez-se homem entre os simples.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)COELHO NETO, Henrique. As Sete Dores de Nossa Senhora. Rio de Janeiro: E. Bevilacqua & Cia., 1907. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43241 . Acesso em: 30 abr. 2026.