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#Crônicas#Literatura Brasileira

A Descoberta da Índia

Por Coelho Neto (1898)

Despedindo-se, dalli se foram agradavelmente impressionados ao palacio do xeque que ficava num largo desafogado e de grande asseio com muitas palmeiras e moutas em flor. Ao fundo d'um horto de arvores copadas, com ar uma fonte que cantava n’um bosquesinho recatado, crescia a residencia real.

Subindo os degráos que eram seis, de pedra negra e luzente, foram, por cima de tapetes, á primeira porta onde se achava um negro espadaúdo, de ferocissima presença, com um saio amarello e uma fóta vermelha, firme como uma figura de pedra, com o terçado nú entre os braços cruzados e, como esse, tres outros encontraram guardando outras tantas entradas até que chegaram á sala régia, toda branca, de muita luz, com o ambiente cheirando a resinas que as caçoulas defumavam.

Sobre almofadas de matizes variegados havia mouros reclinados e mulheres, com as cabeças cheias de moedas, como besantes, os braços cingidos por armillas e grandes pingentes de cobre nas orelhas, tão molles e entorpecidas, movendo com vagar os braços, que pareciam alli estar pedindo amores.

O xeque, em grande fausto, cercado de uma turma de guerreiros negros, com o xerife ao lado, esperava em fofos coxins, com a altiva magestade de um príncipe christão e vendo-os sorrio bondosamente indicando-lhes, com um gesto lento, como se lhe pesassem os anneis que lhe enchiam os dedos, dois assentos macios onde repousassem.

Já alli havia, sobre uma mesa de magnificos entalhes, varias amostras de especiarias e ouro e prata e cera e alambre e, dizendo o xeque, que de tudo aquillo havia abundancia em Mombaça e que, a preço minimo, daria, fez entrega aos dois homens servindo-lhes, depois, alimentos que rescendiam e fructas de summo doce.

Tornando a bordo ajuntaram-se os maios apertando os dois homens com perguntas elles, porém, que levavam uma commissão, foram direito ao Gama e, narrando-lhe o que haviam visto, entregaram-lhe as amostras que levavam repetindo as palavras do soberano negro.

Vendo o Gama as especiarias que eram, a bem dizer, a causa da sua saída aos grandes mares, não poude disfarçar o seu contentamento e ouvindo em conselho os capitães, porque os mouros continuavam a demonstrar amizade, resolveu fundear mais proximo do porto.

Saindo á frente a nau S. Gabriel, n'uma volta de mar, foi sobre um baixo adernando o que, percebendo os dos mais navios puderam, colhendo as velas com tempo, sustar outros desastres e as ancoras, de novo, unharam a areia.

Mouros, que se achavam dentro da S Gabriel, ouvindo os constantes brados da maruja que corria azafamada e afflicta para salvar o barco, julgaram que lhes haviam descoberto a perfídia e, com tal idea, precipitaram-se n’agua, fugindo a bom nadar em direcção á terra. Em grande colera, aos berros, transfigurado de odio mandou o capitão mór que pingassem dois outros que não haviam podido acompanhar os fugitivos e foram os traidores agarrados e, desnudando-se-lhes os ventres com pez fervente foram pingando as gottas sobre as carnes que chiavam; retorcendo-se, aos brados, confessaram a traição e que os pilotos que lhes déra o xeque iam peitados para atirar as naus sobre baixios. Um terceiro ia ainda ser submettido ao supplicio mas, já de mãos atadas, arrojou-se temerariamente ao mar e o piloto que levavam de Moçambique com tamanho azedume do navegador e receoso da sua ira, ao luzir da manhã, achando a gente distrahida, poz-se a nado.

Não era o Gama de coração sensível e, se continha os seus impulsos violentos, era que tinha em mais conta o exito da empreza do que a vingança mas, em se lhe encrespando a raiva, nada o detinha e castigava e torturava com a crueldade céga do seu ódio.

Os mouros, certos de que não ganhariam as naus com a astucia, resolveram perdel-as com a audácia e, á noite, nas suas zabras ligeiras, remando surdamente, coseram-se com o costado dos navios e uns palmeando, outros subindo ás botucaduras, preparavam o assalto emquanto outros, á frente, iam sem ruído, picando as amarras para que as naus, garrando, fossem sobre os baixios e nelles ficassem á mercê do xeque. Descobertos com tempo, e alarmada a companha, fugiram desabaladamente tornando, porém, em a noite seguinte sem, todavia, atracarem por haver maior cuidado e redobrada vigilancia a bordo.

Ainda demorou-se a frota n'esse porto tão salteado de insidias porque o Gama não perdia a esperança de encontrar piloto que o guiasse ao desejado termo mas, ao fim de dois dias, safaram-se os navios fazendo-se ao mar roleiro onde, entretanto, andavam as vidas mais seguras.

Iam longe de Mombaça quando avistaram um zambuco no qual viajavam varios homens e uma joven mulher que era d'um mouro, o principal do bando. Do que traziam em mantimentos fez presa o capitão mor e interrogando os homens sobre se conheciam o caminho que demandava todos negaram

(continua...)

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