Por Lima Barreto (1911)
O café foi servido e ambas deixaram um instante de conversar. Mme. Foirfable perguntou:
— Quem será o Ministro da Guerra?
— Não sei; mas Álvaro não pode deixar de ser promovido. Agora é por antigüidade e merecimento. O Supremo já disse... Queres ver o Almanaque?
— Não é preciso... Sei bem... Não vai ser ministro o Costa?
— Qual Costa? Costa está barrado.
— Não sabes nada?
— Nada.
— Se fosse o Manoel?
— Era bom... O Álvaro estava feito... Mas ele não quer lugar no ministério, quer civil.
— Isto arranja-se.
— Tudo vai ser militar.
Acabaram de tomar café e Mme. Forfaible ainda pediu que D. Anita se interessasse junto a Neves Cogominho pela nomeação de um parente. Como se fosse hora adequada, Mme. Forfaible dirigiu-se ao Senado. Não estava certa de obter, mas servia à amiga e podia ver o que havia. Não lhe foi difícil falar ao pai de Edgarda, que prometeu interessar-se; sobre política, porém, nada pode adiantar. Observou as fisionomias dos contínuos, dos solicitantes, dos jornalistas e parlamentares; notou o tom das conversas aos cantos da janela, e pareceu-lhe que havia alguma coisa de anormal. Esses rumores, esses cochichos, ela os ouvia desde muito tempo; mas agora, depois das revelações da amiga, Anita já sabia do que se tratava. Era preciso aproveitar. O marido devia esforçar-se por ser ministro e viu na coisa uma promoção.
Não tinha intenção de vir, mas as sombras, as vitrinas, a agitação da rua do Ouvidor atraíam-na como para um afago. Mergulhou nela sentindo a volúpia de um banho morno. Já pisava de outra forma, já olhava sem “morgue”; sentia-se bem no seu elemento. Não tardou a encontrar conhecimentos. Parou um pouco a falar com o poeta Albuquerque, um poeta curioso, só poeta nas salas, só conferencista nas salas, teimoso em sê-lo por toda a parte, mas mesmo os que o conheciam nos salões, não admitiam que o fosse fora deles. Mme. Forfaible gostava de falar com ele e gostava de seus versos, mas os compreendia melhor quando os recitava nas casas de família, entre moças e senhoras, de casaca ou “smoking”, com o seu grande olhar negro quase parado, sem fixar-se em nenhuma fisionomia.
Sabendo como julgavam a sua poética, Albuquerque fazia o possível para desmentir esse julgamento. Empenhava-se para publicar os seus sonetos, nos grandes jornais, aos domingos; aderia às revistas “chics” e das quais se dizia redator. Todos, porém, nas rodas de literatos, como fora delas, não se convenciam de que fosse outra coisa que um poeta de salas e festas burguesas.
A sua elegância era procurada e o seu falar todo cheio de sibilos, de chiantes, que sublinhavam gestos demorados e quase sempre impróprios. A sua inspiração, a sua versificação de colegial, as suas imagens talvez fossem muito do gosto das nossas salas; mas, à luz do dia, nas revistas e jornais, provocavam risos e galhofas. Apesar de rico, era delicado e atencioso com os pobretões dados a versos, e todos perdoavam o seu fraco, não o debochavam publicamente, e ele vivia com a sua infantil ilusão e o seu grande olhar negro que supunha fascinador. Albuquerque ofereceu-lhe chá e foram tomar na saleta “chic”.
— Tenho, minha senhora, uma nova produção. Creio que vai gostar muito dela.
— Não a recite na rua, senhor Albuquerque. Podem pensar que sou também
literata....
— Não havia mal nisso. Guardarei, entretanto, para dizê-la aos servirmo-nos do “tea”; e, entre um “gateau” e outro, poderei contar-lhe, minha senhora, a “história vernal dos meus amores”.
— É do soneto?
— É, minha senhora. — Logo vi.
No caminho, encontraram Benevenuto, o primo de D. Edgarda, que os cumprimentou e continuou a caminhar. Albuquerque disse por aí a D. Anita:
— Dizem que este moço tem talento... Ele faz versos, a senhora sabe?
— Sr. Albuquerque, penso que poeta aqui é o senhor...
— Não , minha senhora. Não! Perdoe-me... Ouço sempre dizer que ele tem muito talento e informava-me simplesmente.
Benevenuto não fazia versos nem coisa alguma. A sua preocupação era mesmo não fazer nada. Não tinha isso como sistema e até estimava que os outros o fizessem. Era o seu modo de viver, modo seu, porque se julgava defeituoso de inteligência para fazer qualquer coisa e inútil fazê-la desde que fosse defeituoso. Gastara uma parte da fortuna em prodigalidades e ações vulgares e ganhara a fama de extravagante. Moço, ilustrado, a par de tudo, rico ainda, podia bem viver fora do Rio, mas dava-se mal fora dele, sentia-se desarraigado, se não respirasse a atmosfera dos amigos, dos inimigos, dos conhecidos, das tolices e bobagens do país. Lia, cansava-se de ler, passeava por toda a parte, bebia aqui e ali, às vezes mesmo embebedava-se, ninguém lhe conhecia amores e as confeitarias o tinham por literato. Não evitava conversas, tinha relações em toda a parte e, por sinal, depois de passar por Mme. Forfaible e Albuquerque, encontraram o Inácio Costa, com quem foi tomar café.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. Numa e a ninfa. Brasília, DF: Ministério da Educação, Domínio Público. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16822 . Acesso em: 29 abr. 2026.