Por Coelho Neto (1897)
Ao declinar do sol, quando cessava a alegria rural e, quietos, em mangotes brancos, os rebanhos desciam das pasturas e o canto das aves morria em estribilhos tristes, José, à entrada da caverna, as mãos cruzadas sobre o cajado, contemplava o céu macio, barrado de ouro no ocidente, onde os outeiros pareciam arder como altas piras sobre as quais flamejasse um lume votivo.
Um mole, lânguido quebranto prostrava a natureza.
As árvores espreguiçavam-se em movimentos morosos; raros pássaros aligeiravam o vôo atravessando a luz vesperal.
Nas alquebradas sombrias crescia a voz das águas borbulhantes, saltando, escachoando de pedra em pedra até fluírem massas sob as pendidas ramas que pareciam tremer de frio.
Longe, na cidade, ressoava o tumulto humano. Grossos rolos de fumo negro subiam nos ares, fundiam-se, dissipavam-se e, à medida que a noite conquistava a paisagem, apontavam pequeninas estrelas esmaltando o céu.
A voz de Maria no fundo da caverna entoava suavemente. Era o encantamento maternal, a mimosa cantilena com que Jesus adormecia.
O patriarca, recolhido em pensamento, olhava, e, como se voltasse para o lado do oriente obscuro, viu um como fúlgido alfanje chamejando na treva.
Tremeu e, fitando o olhar na estranha aparição, notou que avançava no céu vagarosamente.
Era uma estrela enorme, de brilho coruscante, que parecia haver atravessado a teia da Via Láctea, tendo dela trazido um rútilo farrapo que a seguia através do espaço.
O astro subia em marcha grave e as demais estrelas esmoreciam à sua passagem como se se retraíssem tímidas.
Pelos caminhos, pelos outeiros homens, mulheres paravam atônitos olhando o prodígio. Alguns, atemorizados, invocavam deuses, rojando-se por terra; crianças choravam espavoridas.
E quando a noite negrejou fechada, o astro, com a flamejante cauda aberta, pairou no céu, sobre a caverna, como uma palma de luz que assinalasse o berço do Messias.
EPIFANIA
Pastores, que faziam a vigília no campo, contemplavam embevecidamente a estrela maravilhosa, quando ouviram cantares e rumorosa estropeada como se festiva e densa turba viesse pela encosta do cerro mais alto.
Ergueram-se estranhando a caravana e viram romper, à luz de archotes, cujo clarão tingia sanguineamente a noite, um cortejo brilhante e desusado.
Os animais pareciam ajaezados de ouro, com recamos de pedrarias, tamanho era o fulgor que irradiavam nos cabelos árdegos em que vinham.
Onagros, tangidos por negros, trotavam sacolejando fardos e três dromedários enxairelados (1) caminhavam entre lanças garbosamente empunhadas por cavaleiros robustos.
Tamborinos e anafis (1) soavam em concerto, regulando o ritmo da marcha. Vozes bradavam e a turba descia assustando as ovelhas e os grandes bois que tresmalhavam metendo-se pelos matos.
Os cães de guarda, atentos, d’orelhas fitas, conservavam-se silenciosas como se reconhecessem os chegadiços.
Por vezes as lanças chocavam-se, tinindo, e cerrada, na claridade fulva dos archotes, a caravana aproximava-se. Na planície, ao rouco estrugir de uma buzina, estacou em ordem.
Ligeiramente, destros e açodados negros desfizeram grandes rolos, fincaram cepos e, em pouco, tendas retesaram-se.
Os animais, aliviados da carga, deixaram-se na erva fresca, espojavam-se contentes e, em volta das tendas, como uma sebe de guerra, os cavaleiros cravaram as lanças pelos cantos ficando os ferros luzindo como estrelas.
Os pastores, esgueirando-se na sombra, procuravam chegar ao acampamento para ver de perto os chefes da hoste que com tanta grandeza se movia.
Um deles, mais ousado, foi descoberto por um grande negro que trazia às costas, suspenso duma corrente, um dardo de ferro.
Sem tempo de fugir caiu em poder do vigia que logo o conduziu à tenda mais suntuosa, toda alfaiada de seda e púrpura e nublada de aromatas.
Lampadários de ouro iluminavam-na. A erva desaparecia sob tapetes altos, escudos lampejavam e, como o, negro o impelisse, viu-se o pastor na presença de três homens, ricamente paramentados com fotas na cabeça rutilantes de gemas. Eram magos das terras remotas.
Um alvo, a barba negra e farta espalhada no peito cintilante de pedrarias; outro da cor amarelada dos filhos das extremas da Ásia; o terceiro, negro, com imensas camândulas de ouro em volta do pescoço, braceletes nos punhos, argolas nas orelhas e na fronte alta, preso por um mastro, um diamante que coruscava.
O pastor ajoelhou-se e, medroso, espera ouvir palavras severas, quando um dos homens tranqüilizadoramente perguntou:
- Se sabia em que paço, por ali perto, nascera o rei dos judeus. O rústico, sem entender a pergunta, ficou arvoado, imaginando-se vítima de uma zombaria. Lembrou-se, porém, dos anjos e de todos os prodígios da noite messiânica, respondeu vagamente:
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)COELHO NETO, Henrique Maximiano. A partida. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7527 . Acesso em: 7 abr. 2026.