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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

— Tem muito talento! O caixeiro acudiu: Cerveja! esgoelou o Lins e atirando os braços para o ar: Muita cerveja! Eu hoje quero beber e, pungido, com uma grande expressão de dor: Estou muito triste. Imaginem vocês o meu gato! Fui encontrá-lo morto hoje de manhã. Um gatinho que era um encanto. Tão meigo que nem aos ratos fazia mal. Vocês não gostam de gatos? Rompeu a rir e, num berro atroador, atirando o busto sobre a mesa, estendendo os braços, encharcando as bordas do punho no molho do bife, repetiu a pergunta: — Vocês não gostam de gatos?

— Que é isso, Lins? — observou baixinho o romancista e o poeta, depois de o fitar espantado, olhou em volta dizendo:

— Que tem? Então eu não posso falar das minhas mágoas? Eu gosto muito dos animais. E furioso, tentando erguer-se, com o punho ameaçador, rugiu: — Perto de mim ninguém faz mal a um bicho, não admito! Agarro por uma perna e faço assim... Fez o gesto violento de quem torce e concluiu: — Ainda que seja... o imperador da China. Não admito! Mais calmo, porém, tornou ao assunto: — Então vocês não gostam de gatos? Miau! Miau! Chamfleury, Baudelaire, Gautier eram doidos por eles. Um angorá, heim?

— O teu era angorá? — perguntou Ruy Vaz.

— O meu? Qual nada! Era um gato muito ordinário que só me dava trabalho. Morreu! — disse juntando as mãos e elevando beatamente os olhos. Imaginem vocês... um gato que comia duas vezes ao dia. Ao ver a cerveja que o caixeiro trazia rompeu a rir apresentando o copo. Bebeu um gole e repetiu com os bigodes brancos de espuma: — Estou muito triste. Imaginem vocês: uma menina loura, muito loura, dona dos mais belos olhos azuis que tenho visto... uma figurinha de keepsake! Leonor, chama-se Leonor, imaginem vocês! Suspirou e sorveu novo trago. Hoje estou disposto a beber, bebo tudo... Não gosto de conhaque, pois bebo! Mas imaginem vocês, os mais belos olhos azuis que tenho visto! Uma menina loura, loura! Atirou um murro à mesa:

— Ofereci-lhe em um soneto a minha mão de esposo. Sim, porque é uma mão de artista; espalmou a mão para que Anselmo examinasse; ofereci-lhe, porque ela é mulher para viver sobre sedas e veludos, cercada de todos os carinhos, ouvindo versos líricos. É uma mulher divina, digna de um de nós, de todos nós! Palavra de honra e... imaginem vocês. Sacudiu um gesto indignado: — Isto não é vida, isto não é sociedade! Ah! Paris! Paris..

— Mas a menina...? — perguntou Ruy Vaz. O poeta encarou o romancista sorrindo e, de repente, derreando a cabeça, batendo com a bengala:

— Ah! Sim; eu queria fazê-la feliz... Imaginem vocês, tenho talento, posso fazer uma mulher feliz. Não posso?

— Sim, podes, disse Ruy Vaz.

— Pois ela não quis: vai casar com um taverneiro. Isto não é vida! Eu ainda faço uma desgraça. Mais cerveja! — reclamou.

Quando saíram o Lins, sempre risonho e oscilando como um pêndulo, propôs um passeio ao campo. Gostava da natureza àquela hora silente, tão favorável à meditação. Iriam para o arvoredo, sonhar.

— Não achas melhor sonhar na cama? — perguntou Ruy Vaz.

— Qual cama! Detesto esse móvel. O sono é uma fraqueza indigna dos homens de espírito. O sono é o resultado de uma anemia cerebral e, para as anemias, os médicos aconselham os tônicos e os exercícios. Eu já tenho os tônicos, vamos agora à outra medicação. Um poeta não dorme; o poeta é vidente e o vidente deve estar sempre com os olhos abertos. Rompeu a rir, logo, porém, muito sério, atirando uma punhada que o levou, no ímpeto, de encontro à parede, rugiu: — Eu queria andar. À noite é que a gente caminha à vontade porque as ruas estão desertas. Detesto a multidão! — e cuspiu enojado. A multidão é ignóbil! Não há como a solidão para um homem de talento. Vamos a Niterói: há ali muita poesia e eu tenho ainda uns restos de 1632... podemos fazer a travessia.

— Tiraste a sorte grande? — perguntou Ruy Vaz.

— Eu?! Deus me livre! Saiu ao Capitão Negro. Eu escrevi os versos fazendo a apologia da sorte do quiosque. Ganhei vinte mil réis. Vocês não leram os versos na Gazeta? Estão bem bons para o preço. Há apenas uma rima pobre demais para um poema da fortuna; rimei, imaginem vocês, rimei estrela com vela. O e estrela não faz boa liga com o de vela, um é grave, outro é agudo, mas também, por vinte mil réis, não posso estar a escolher rimas milionárias. Mergulho a mão no saco e o que sai é magnífico. Demais vela e estrela dão luz, ambas são luminosas. A vela é a estrela da terra, a estrela é a vela do céu, disse com ênfase. Mas o diabo é que eu empreguei o verbo. Vamos ou não a Niterói?

— Eu não vou, disse Ruy Vaz. Anselmo declarou que sentia bastante não poder acompanhar o poeta, mas tinha grandes afazeres no dia seguinte, precisava acordar cedo.

— Gente fraca! — disse ele com desprezo. Pois eu vou. Boa-noite! E, muito desequilibrado, entrou na Maison Moderne. Ruy Vaz e Anselmo seguiram.

(continua...)

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