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#Contos#Literatura Brasileira

As joias da Coroa

Por Raul Pompéia (1882)

— Oh! Como deixaram abertas as janelas? — gritou ele, dirigindo-se aos criados.

— Eu pensei que elas estivessem fechadas — respondeu Inácio com voz um pouco alterada. — Demais, quem costuma fechar este lado do palácio não sou eu... Quando examinei, as portas estavam encostadas... Esqueci-me de ver os trincos...

A voz de Inácio, comovia pelo medo que ele tinha de se ver apertado num interrogatório, foi-lhe útil, porque o mordomo supôs que aquilo fosse receio de ser despedido.

— Pois você está arranjado, meu amigo... Devia ter examinado... Está arranjado...

— Mas, sr. mordomo...

— Não sei... Você vai pagar caro o descuido.

— Olhem esta corda!... — gritou uma pessoa que fora procurar pelas janelas vestígios dos ladrões. — Olhem a corda!

Todos, inclusive o mordomo e Inácio, correram para a janela.

— Os tratantes! — disse sem mais exame o mordomo. — Subiram por esta corda! Que atrevidos!... E vocês não ouviram barulho?

— Nós dormimos lá embaixo... Além disso, os reposteiros não deixam ouvirse o barulho que se faz na sala.

— O que dirá o sr. duque?... — diziam todos olhando para a corda que desaparecia pela hera da parede.

Aquele fato da escalada às janelas e do arrombamento do armário incomodava extraordinariamente o mordomo. Não menos incomodados se achavam os criados, certos de que seriam eles os responsabilizados...

Sem saber que resolução tomar, olhavam para a cara do mordomo. O mordomo estava lívido.

— Ainda precisamos verificar o que é que os ladrões levaram — disse o mordomo. — Só o particular poderá nos informar... Foram já chamá-lo? — Sim, senhor — responderam simultaneamente vários criados.

Como para confirmar esta resposta, fez-se uma grande bulha num aposento vizinho e precipitou-se na sala, arquejante, o particular do duque.

Era um pobre velho de mais de sessenta anos, que estava desde longa data a serviço do duque.

Sempre que este fazia qualquer viagem, o particular retirava-se do palácio e ia passar algum tempo com a família, que residia no arrabalde de Santo Cristo, a alguma distância da quinta.

Como o duque dissera na véspera que, da casa do marquês de ***, seguiria para Anatópolis, o particular, apenas o amo saiu com a duquesa para o baile, abandonou o palácio e seguiu para a casa da família.

Nenhum crime havia no procedimento do particular. A sua presença na quinta só era necessária quando aí estava o duque.

E se, por um motivo qualquer, como, por exemplo, para guardar as jóias que os duques mandassem da casa do marquês, a fim de não levá-las para Anatópolis; se, por uma circunstância superveniente, ele se tornasse necessário, um criado iria chamá-lo...

Um criado apareceu-lhe na porta, conforme fora previsto.

Infelizmente, o motivo do chamado era mui diverso de quantas hipóteses pudera imaginar o particular.

— Entraram ladrões no palácio!... — foi o grito que o pobre velho ouviu, ao acordar.

— Um criado está aí dizendo que houve um roubo no palácio! — disse a pessoa que foi ao quarto desapertá-lo.

O particular saltou da cama, vestiu-se às pressas, desesperou-se com a franqueza da sua idade, que não lhe permitia maior agilidade; passou um pouco d’água no rosto e foi ter com o criado.

O criado contou a surpresa da manhã.

— Estou perdido! — exclamou o velho. — Estou perdido! Que confiança poderá mais depositar em mim o sr. duque?

E, sem despedir-se dos filhos, que o cercavam fitando-o com os olhos espantados, saiu para a rua.

O criado que dera a notícia afagou carinhosamente os cabelos em desalinho das crianças, cumprimentou a assustada esposa do particular, dirigindo-lhe algumas palavras tranqüilizadoras, e saiu em seguimento do velho.

O pobre homem, por um incrível esforço, vencia o peso dos anos e corria como um desassisado para a quinta do duque...

Estava encantador o dia... Uma transparente manhã difundia-se no ar. A perspectiva das ruas afunilava-se distintamente através da limpidez da atmosfera. As casas ainda tinham fechadas as janelas, como se temessem a inundação da luz. Sobre os telhados os gatos arqueavam a espinha nuns demorados espreguiçamentos matutinos. No fundo dos quintais os galos solfejavam a música risonha dos cacarejos. Nas árvores dos jardins, pingava o orvalho das folhas. As chaminés começavam a sacudir para o céu uns lenços diáfanos de fumaça azulada. O estômago dessas casas acordava primeiro que o rosto. Pelos passeios corriam criados e criadas levando nos braços cestos de compras, enfeitados de molhos verdes de couves e franjas de cebolas; pelo céu, corriam pedaços de nuvens com as bordas douradas pelo fogo da aurora.

Uma brisa sem rumo passeava à toa ao longo das paredes...

O particular do duque atravessava pelo meio de todo aquele admirável amanhecer como atravessaria uma tempestade: possuído da sua idéia, chegar ao palácio.

Andava sem ver, senão o chão que tinha de pisar.

As pessoas que estavam na quinta o viram passar apressado como se fosse acudir a alguém que pedisse socorro. Eram moradores da aldeia e trabalhadores do parque. Reconheceram o particular do duque e o acompanharam.

(continua...)

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