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#Sermões#Retórica

Sermão da Terceira Quarta-Feira da Quaresma

Por Padre Antônio Vieira (1670)

120. Podem replicar a isto os nossos pretendentes que os lugares que pediam não eram vacantes, senão criados, ou que se haviam de criar de novo. Mas também esta instância se desfaz como quibus paratum est, e com a prevenção ou predestinação dos providos. Deus, quando cria ofícios de novo, primeiro cria os oficiais que os ofícios, e assim já nascem providos, sem terem instante de vagos. No princípio do mundo criou três presidências, duas no céu, e uma na terra, mas primeiro criou os presidentes que as presidências. A primeira presidência do céu foi a do sol, para que presidisse ao dia, e a segunda a da lua, para que presidisse à noite; mas, antes que criasse estas presidências, já tinha criado um e outro presidente: Fecit duo luminaria magna: luminare majus ut praeesset diei, luminare minus, ut praeesset nocti (Gên.l, 16). A presidência da terra foi a do homem sobre todos os animais do mar, do ar e da mesma terra, mas também estava já criado o presidente, antes que criasse a presidência: Faciamus hominem ad imaginem et similitudinem nostram, et praesit piscibus maris, et volatilibus coeli, et bestiis, universae que terrae.19 O mesmo estilo observou Deus em todos os ofícios que criou de novo. Houve de criar de novo o reino de Israel, e primeiro criou o rei, e mandou ungir a Saul por Samuel, do que criasse e lhe desse a reino. Houve de criar de novo o ofício de restaurador do mundo, e primeiro, e cem anos primeiro, nomeou a Noé, e lhe mandou fabricar a arca, do que lhe desse e exercitasse o ofício. Não posso deixar de me lembrar neste passo de quantas vezes se têm visto as naus da Índia de vergas de alto, sem se saber, nem estar nomeado quem as há de governar. Nós começamos as nossas naus pela quilha; Deus começou a sua pelo piloto. Assim o fez também Cristo. Muito antes de morrer, nomeou a S. Pedro, e, depois de ressuscitar, lhe entregou a barca. Imitem esta política do céu os príncipes da terra; dos oficios que se criarem façam primeiro os oficiais que os ofícios, e nos ordinárias, e de sucessão, tenhamlhes prevenidos os sucessores, para que, vagando, não estejam vagos. E desta sorte, ativa e passivamente, cessará em grande parte o desagradado não.

§VII

Como dizer não, quando é forçoso negar? A cizânia e a resposta do pai de famílias aos criados zelosos. Escusar um não com outro, como fez Labão a Jacó. Razões da escusa de el-rei Aquis a Davi.

121. Temos apontado os meios com que antecipadamente se podem atalhar ou diminuir as ocasiões de se dizer nem ouvir este tão dura advérbio. Mas porque se podem oferecer contudo algumas em que seja forçosa negar, vejamos agora o modo, ou modos, com que nos tais casos, com menos sentimento dos vassalos e menor mortificação do príncipe, se há de dizer não. El-rei, que está no céu, disse a um seu confidente, que tinha vinte e quatro modos de negar. Teve esta notícia um embaixador, que havia tempos requeria certo despacho, e com a confiança de criado antigo que tinha sido de Sua Majestade, deu uma nova instância com estas palavras: – Cá ouço que Vossa Majestade tem vinte e quatro modas de negar. Senhor, se Vossa Majestade tem vinte e quatro modos de negar, eu tenha vinte e cinco de pedir. – Quais fossem estes vinte e quatro modos de negar, eu o não sei, nem me ocorrem, mas como são e podem ser mais os modos de pedir, necessário será contra a importunidade dos pretendentes, repulsá-los talvez com um não mais ou menos desenganado, segundo o que pedir a matéria.

(continua...)

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