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#Sermões#Retórica

Sermão da Quarta-Feira de Cinza

Por Padre Antônio Vieira (1673)

O mesmo acontece, senhores meus, e o mesmo experimenta todo aquele que deveras se resolve a deixar o mundo ao mundo, e acabar a vida antes da morte. Não são necessários para isso arrebatamentos, como os de Henoc, nem carros de fogo, como o de Elias, senão uma valente resolução. Quem assim se resolve, goza como Henoc e Elias todos os privilégios de morto. Corra o mundo por onde correr, nenhuma coisa lhe empece, nem lhe dá cuidado. Um dos professores deste estado foi, como vimos, S. Paulo, e por isso, ainda vivo, dizia: Vivo autem, jam non ego (Gál. 2,20). E que quer dizer: Eu vivo, mas já não sou eu? Quer dizer, diz S. Bernardo: Ad alia quidem omnia mortuus sum: non sentio, non atrendo, nou curo: Todas as coisas deste mundo são para mim como para os mortos; nem as sinto, nem me dão cuidado, nem faço mais caso delas, que se não foram; porque se elas ainda são, eu já não sou. Considerai as imunidades dos mortos, e vereis o descanso de que gozam e os trabalhos de que se livram os que antecipam a morte. Vieram ao Calvário os executores de Pilatos para quebrar as canelas aos crucificados, e assim o fizeram a Dimas e Gestas com grandes dores daquele tormento, porque estavam ainda vivos (Jo. 19,31 s.). Ad Jesum autem cum venissent (Ibid 32), mas quando chegaram a Cristo, Ut viderunt eum jam mortuum, non fregerunt ejus crura: Como viram que estava já morto, não executaram nele aquela crueldade. – De quantos quebrantamentos, de quantas moléstias, de quantas sem-razões se livra quem está já morto! O epitáfio que eu pusera a um morto destes, é aquele verso de Davi:

Inter mortuos liber (Sl. 87, 6):

Entre os mortos livre. Livre dos cuidados do mundo, porque já está fora do mundo. Livre de emulações e invejas, porque a ninguém faz oposição. Livre de esperanças e temores, porque nenhuma coisa deseja. Livre de contingências e mudanças, porque se isentou da jurisdição da fortuna. Livre dos homens, que é a mais dificultosa liberdade, porque se descativou de si mesmo. Livre finalmente de todos os pesares e moléstias e inquietações da vida, porque já é morto.

A todos os mortos se canta piamente por costume: Requiescant in pace. Mas esta paz e este descanso, só o logram seguramente os que morreram antes de morrer. Vede-o no mesmo texto de Davi, donde a Igreja tomou aquelas palavras: In pace in idipsum, dormiam et requiescam:26 Morrerei e descansarei em paz para isso mesmo: In idipsum. Nesta cláusula in idipsum está o mistério, que sendo a sentença tão clara, a faz dificultosa, mas admirável. Que quer dizer: Morrerei e descansarei em paz para isso mesmo? Se dissera: Morrerei para descansar em paz, bem se entendia; mas Morrerei e descansarei em paz para isso mesmo? Se há de morrer e descansar em paz para isso mesmo, há de morrer e descansar em paz, para morrer e descansar em paz? Assim é, e esse foi o profundo pensamento de Davi. Como se dissera: Eu quero morrer e descansar em paz na vida. E por que, ou para quê? Para isso mesmo; para morrer e descansar em paz na morte: ln pace in idipsum, dormiam et requiescam. Por isso, com grande propriedade, significou o morrer pela frase de dormir: dormiam, porque o sono é morte em vida. Daqui se seguem duas conseqüências últimas, ambas notáveis e de grande consolação para os que morrem antes de morrer. A primeira, que só eles, como há pouco dissemos, gozam seguramente de paz e descanso. A segunda, que da paz e descanso desta morte, se segue também seguramente a paz e descanso da outra, que é o argumento de todo o nosso discurso. Os que morrem quando morrem, perdem o descanso da vida, e não conseguem ordinariamente o da eternidade, porque passam de uns trabalhos a outros maiores. Assim diziam no inferno aqueles miseráveis, que já tinham sido felizes: Lassati sumos in via iniquitatis:27 Chegamos cansados ao inferno. – Ao inferno, e cansados, porque lá não tivemos descanso, e cá tereinos tormentos eternos. Pelo contrário os que morrem antes de morrer, morrem descansados, e morrem para descansar: In pace in idipsum, dormiam et requiescam. Oh! que paz, oh! que descanso para a vida e para a morte! Creio que ninguém haverá, se tem juízo, que se não resolva desde logo a viver e morrer assim, ou a morrer assim para morrer assim. Acabando desta maneira a vida, esperareinos confiadamente a morte, e por benefício do pó que somos: Pulvis es, não temereinos o pó que havemos de ser: ln pulverem reverteris.

LAUS DEO

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