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#Sermões#Retórica

Sermão da Bula da S. Cruzada

Por Padre Antônio Vieira (1647)

É possível que há de haver no mundo homem com fé, que podendo-se purificar de todos seus pecados, e pagar a Deus as penas de que lhe é devedor, e uma e outra coisa tão facilmente, o não faça? Mas a mesma facilidade é a causa. É tal a condição vil de nossa natureza, que só estimamos o dificultoso, e desprezamos o fácil. A primeira vez que se concederam as indulgências do Ano Santo, foi tal o concurso de todo o mundo a Roma, que não cabendo a multidão das gentes na cidade, inundava os campos. Se esta mesma bula se concedera uma só vez em cem anos, e no cabo do mundo, lá a havíamos de ir tomar. Pois porque Deus nos facilita tanto este bem, e nos vem buscar com ele à nossa casa, o havemos nós de estimar menos? O que o havia de fazer mais precioso, lhe há de tirar o preço? Tais como isto somos os homens. Quando Eliseu mandou a Naamã Siro que se lavasse no Jordão para sarar da lepra, quis-se ele voltar logo para a sua terra, desprezando o remédio pela facilidade e não crendo que podia ter tanta virtude o que tão pouco custava. Mas que lhe disseram a este príncipe os seus criados, e como o persuadiram a que fizesse o que Eliseu lhe ordenava? Pater; et si rem grandem dixisset tibi propheta, certe facere debueras, quanto magis quia nunc dixit tibi lavare, et mundarebis (4 Rs. 5,13): Senhor, se o profeta vos mandasse fazer uma coisa muito dificultosa, é certo que a havíeis de fazer para sarar da lepra; pois, se vos pede uma coisa tão fácil, como lavar-vos no Jordão, por que o não fareis? – Isto diziam a Naamã os prudentes criados, e o mesmo digo eu aos que não quiserem curar suas consciências e acudir a suas almas para esta e para a outra vida, com um remédio tão fácil. Se para nos purificar de tantas lepras tão feias, tão asquerosas e tão mortais, como são os pecados de todo gênero, e para nos livrar das penas devidas por eles, ou eternas no inferno, ou de muitos anos no purgatório, devíamos aceitar qualquer partido, e oferecer-nos muito de grado a qualquer satisfação, por dura e dificultosa que fosse, uma tão fácil como esta, em que tudo se nos concede e perdoa de graça, por que a desprezareinos? Se há alguém que saiba responder a este porquê, deixe embora de tomar a Bula. Mas porque estou certo que nenhum entendimento que tenha fé, lhe pode achar resposta, quero-vos deixar com a mesma pergunta nos ouvidos, esperando que por eles nos abra os corações aquele mesmo Senhor que, para nos encher de tantas graças, se deixou abrir o peito: Unus militum lancea latus ejus aperuit.

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