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#Sermões#Retórica

Sermão da Quinta-Feira da Quaresma

Por Padre Antônio Vieira (1669)

Parece coisa incrível e impossível que um cego não conheça que é cego. Mas como já temos visto que há muitos cegos desta espécie, resta saber a causa de tão estranha e tão cega cegueira. Se algum cego pudera haver que se não conhecesse, era o nosso cego do Evangelho, porque era cego de seu nascimento, e quem não conhece a vista, não é muito que não conhecesse a cegueira. Ele porém é certo que a conhecia, e nós falamos de cegos com os olhos abertos, que sabem o que é ver e não ver. Qual é logo, ou qual pode ser a causa por que estes cegos se ceguem tanto com a sua cegueira, e que a não conheçam? Outros darão outras causas, que para errar há muitas. A que eu tenho por certa e infalível, é a muita presunção dos mesmos cegos. A causa da primeira cegueira, como vimos, é a desatenção; a da segunda, a paixão e a desta terceira, e maior de todas, a presunção. Nos mesmos escribas e fariseus temos a prova. Deles disse Cristo noutra ocasião a seus discípulos: Sinite eos: caeci sunt, et duces caecorum (Mt. 15,14): Deixai-os, que são cegos e guias de cegos. Mas por isso mesmo é bem que nós os não deixemos agora. Se eram cegos e não viam, como eram, ou se faziam guias de cegos? Porque tanta como isto era a sua presunção. Para um cego guiar cegos, é necessário que tenha dois conhecimentos contrários: um, com que conheça os outros por cegos, e outro com que conheça, ou tenha para si que ele o não é. E tal era a presunção dos escribas e fariseus. Nos outros, conheciam que a cegueira era cegueira; em si, estimavam que a sua cegueira era vista. Por isso, sendo tão cegos como os outros cegos, em vez de buscarem guias para si, faziam-se guias dos outros e se vendiam por tais. Se víssemos que um cego andasse apregoando e vendendo olhos, não seria riso das gentes e da mesma natureza? Pois essa era a farsa que representava nos tribunais de Jerusalém a cegueira e presunção daqueles gravíssimos ministros, e esse era o altíssimo conceito que eles tinham dos seus olhos. Toupeiras com presunção de linces.

Ainda passou muito avante esta presunção no caso de hoje. O cego, depois que Cristo o alumiou, ficou um lince na vista, e as toupeiras queriam guiar o lince. Que um cego queira guiar outro cego, e uma toupeira outra toupeira, cegueira é muito presumida; mas que as toupeiras quisessem guiar o lince, e os cegos dar lições de ver a quem tinha olhos, e olhos milagrosos, foi a mais louca presunção que podia caber em todas as cegueiras. Todo o intento hoje dos escribas e fariseus, e todas as diligências e instâncias com que perseguiam o cego alumiado, e com que o queriam persuadir que agora estava mais cego que dantes, eram a fim de o apartarem da luz e conhecimento de Cristo, e o tirarem e trazerem à sua errada opinião. Ele dizia: Scimus quia peccatores Deus non audit. Eles diziam: Nos scimus quia hic homo peccator est.27 E sendo estas duas proposições tão encontradas, toda a diferença por que condenavam a ciência do cego, e canonizavam a sua, era serem eles os que diziam: Nos scimus. Aquele nós tão presumido, e tantas vezes inculcado nesta demanda, era todo o fundamento da sua censura. Nós o dizemos, e tudo o mais é ignorância e erro. Nós, como se não houvera nós cegos, e como se não fora certo o que eles já tinham inferido: Nunquid et nos caeci sumus.28 O homem dos olhos milagrosos confutava-os, confundia-os, e tomava-os às mãos; e eles, porque não sabiam responder aos argumentos, tornavam-se contra o argumentante, e fixados no seu nós, diziam mui inchados: Et tu doce nos? E quem és tu para nos ensinar a nós? – Eu perguntara a estes grandes letrados: E quem sois vós, para não aprender dele? Ele arrazoa vivamente: vós não dais razão; ele prova o que diz: vós falais e não provais; ele convence com o milagre que Cristo é santo: vós blasfemais que é pecador; ele demonstra com evidência quem é ele: vós buscais testemunhas falsas que digam que é outro; ele é uma águia que fita os olhos no sol: vós sois aves noturnas que cegais com a luz; ele, enfim, é lince, e vós toupeiras, e no cabo vós tão vãos e tão presumidos que cuidais que vedes mais com a vossa cegueira do que ele com os seus olhos. Viu-se jamais presunção tão cega? Só uma acho nas Escrituras semelhante, mas também em Jerusalém, que só em uma terra onde se crucifica a Cristo se podem criar e sofrer tais monstros.

(continua...)

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