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#Sermões#Retórica

Sermão da Quarta-Feira de Cinza

Por Padre Antônio Vieira (1672)

E se não, ajude-se a razão da experiência. Quando os judeus neste caso adoraram o bezerro, no mesmo dia os castigou Deus, matando mais de vinte mil deles (Êx. 32,18). É assim? Logo bem se segue que está Deus na hóstia consagrada. Provo a conseqüência. Se Deus, ponhamos este impossível, se Deus não está naquela hóstia, todos os cristãos somos idólatras, como o foram os judeus quando adoraram o bezerro. É certo porque em tal caso reconhecemos divindade onde a não há. Pois se somos idólatras, por que nos não castiga Deus, assim como castigou aos judeus? Aperto a dúvida: porque os judeus adoraram o bezerro uma só vez, os cristãos adoramos a hóstia consagrada há mil e seiscentos anos; os judeus adoraram o bezerro em um só lugar, os cristãos adoramos o Sacramento em todas as partes do mundo; os judeus que adoraram o bezerro eram de uma só nação, e os cristãos que adoram o Sacramento são de todas as nações do universo. Ainda falta o mais forçoso argumento. Muitos dos que crêem e adoram este soberano mistério, são hebreus da mesma nação, verdadeiramente convertidos à fé; o mesmo autor e instituidor dele, Cristo Redentor e Senhor nosso, era hebreu; os primeiros que o adoraram, creram e comungaram, que foram os apóstolos e os discípulos, eram também hebreus, e esses mesmos hebreus foram os primeiros sacerdotes que o consagraram, e os primeiros pregadores que o levaram, promulgaram, fundaram e estabeleceram por todo o mundo. Pois se Deus é o mesmo, e os adoradores deste mistério os mesmos, por que os não castiga Deus a eles e a nós, como castigou aos antigos hebreus? Se adorar aquela hóstia é idolatria, como foi adorar o bezerro, por que sofre Deus mil e seiscentos anos na face de todo o mundo, o que não sofreu um dia em um deserto? É porque eles foram verdadeiramente idólatras, e nós somos verdadeiros fiéis; é porque eles, adorando o bezerro, reconheciam divindade onde não havia, e nós, adorando aquela hóstia consagrada, reconhecemos divindade onde verdadeiramente está Deus. De maneira, judeu, que com o teu mesmo castigo, com as tuas mesmas Escrituras, e com o teu mesmo entendimento, te está convencendo a razão a mesma verdade que negas, e os mesmos impossíveis e dificuldades que finges.

Mas vamos continuando e discorrendo por todas as dificuldades deste mistério, e veremos como os judeus as têm já crido todas nas suas Escrituras. O Sacramento da Eucaristia por antonomásia é mistério do Testamento Novo: Hic calix novum testamentum est in meo sanguine (1 Cor. 11,25). Mas de tal modo é mistério novo, e do Testamento Novo, que todas as suas dificuldades se creram e se tiraram no Velho. Grande dificuldade é desse mistério, que o pão se converta em corpo de Cristo, e o vinho em seu sangue; mas se o judeu crê nas suas Escrituras que a mulher de Jó se converteu em estátua, se crê que a vara de Moisés se converteu em serpente, se crê que o Rio Nilo se converteu em sangue, que razão tem para não crer que o pão se converte em corpo de Cristo3. Grande dificuldade é deste mistério que se conservem os acidentes fora do sujeito e que subsistam por si sem o arrimo da substância; mas se o judeu crê que a luz, que é acidente do sol, foi criada ao primeiro dia, e o sol, que é a substância da luz, foi criado ao quarto, que razão tem para não crer que existam os acidentes de pão que vemos, onde não tem substância de pão que os sustente?4 Grande dificuldade é neste mistério que receba tanto o que comungou toda a hóstia, como o que recebeu uma pequena parte; mas se o judeu crê que quando seus pais iam colher o maná ao campo, os que colhiam muito e os que colhiam pouco, todos se achavam igualmente com a mesma medida, que razão tem para não crer que assim os que recebem parte, como os que recebem toda a hóstia, comungam todo Cristo?5 Finalmente é grande dificuldade neste mistério, que todas as maravilhas dele se obrem com quatro palavras, e que esteja Deus sujeito e como obediente às do sacerdote; mas se o judeu crê que a três palavras de Josué obedeceu Deus, e parou o sol, e que por não crer Moisés que bastavam palavras para converter a penha em fonte, foi condenado a não entrar na Terra de Promissão, que razão tem para não crer que bastam as palavras do sacerdote para que Cristo desça e o pão se mude6. De maneira que para o judeu confessar a possibilidade no mistério da Eucaristia, em que tropeça, não lhe é necessário nova fé, nem a nossa: basta-lhe a velha, a sua, ajudada só da razão. O que creu nas suas Escrituras. é o que aqui lhe manda crer a fé, só com esta diferença, que aqui mandam-se-lhe crer por junto os milagres que lá creu repartidos. A seu profeta o disse: Memoriam fecit mirabilium suorum, escam dedit timentibus se (SI. 110,4): Fez uma memória Deus das suas maravilhas no pão que deu a comer aos que o temem. De sorte que a memória é nova, mas as maravilhas são antigas; lá estavam divididas, aqui estão compendiadas.

(continua...)

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