Por Lima Barreto (1909)
— Não, mas vinha quase sempre aqui. Meu pai tinha fazenda na Raiz da Serra. Hoje, aquilo não vale nada, mas no tempo dele a estrada a não tinha matado e era lugar rico... Conheço muito o Rio... Quando fui para o Sul em 65, passei por aqui... O Imperador veio ver o desfilar do batalhão... Eu ia triste, pensava em morrer... Não morri, voltei, estou aqui... Está tudo mudado: Abolição, República... Como isso mudou! Então de uns tempos para cá, parece que essa gente está doida; botam abaixo, derrubam casas, levantam outras, tapam umas ruas, abrem outras... Estão doidos!!!
— Há quanto tempo não vem ao Rio, coronel?
— Desde 1882.
Semivazios, os bondes passavam ao chouto das bestas. Pelas calçadas, um vaivém de gente animava a praça. À direita, a grande e acaçapada fachada do quartel-general começava a recolher-se na sombra Mulheres maltrapilhas, aos grupos, negras, mulatas, brancas, bamboleando as ancas, eram seguidas por soldados gingando. As calças pareciam mais vermelhas e as mulheres mais sujas. Um coche de enterro arrancava respeitosamente os chapéus aos transeuntes; um caminhão, pejado de fardos, por instantes interceptava a marcha dos bondes, ao desviar-se de uma andorinha que vomitava móveis, mal suspensos por cordas à sua traseira... passava tudo isto sob os meus olhos tristes e desalentados.
O coronel tinha-se ido; e eu deixava-me a ver e a meditar na solução do meu problema de vida. O meu olhar ia de baixo para o alto, onde flocos de nuvens alvadias, esgarçadas, flutuavam e se tingiam de ouro, de púrpura, de laranja, em rápidas mutações de teatro. Vinha a noite aos poucos e eu continuava a pensar, acariciando cismas, excitando recordações, rememorando a minha infância, as fisionomias que ela viu e os fatos que presenciou. Meu pai, o seu corpo anguloso, seco, a sua dor contida que se escapava no seu olhar e na sua fisionomia transtornada. Via-o às tardes, nos dias de bom humor, mudá-la de chofre, fazer-se risonho, vir para mim, sentar-se à mesa, e, à luz do lampião de querosene, explicar-me pitorescamente as lições do dia seguinte. Ou então, da cadeira de balanço, contar-me as maravilhosas coisas do movimento da terra, dos antípodas, da gravitação universal, e, enleado à minha pergunta se Deus podia parar a terra, responder com hesitação — Pode, sim.
Às oito horas, depois dessas efusões, dessas raras manifestações da sua paternidade, minha mãe punha, na mesa da sala de jantar, o chá que ele tomava em geral sozinho no quarto.
— Pode tirar o chá, “seu” padre?
— Pode, minha filha.
Era assim que se falavam. Encontrei sempre esse tratamento distante entre eles. Pareceu-me que o seu encontro fora rápido, o bastante para me dar nascimento. Uma crise violenta do sexo fizera esquecer os votos do seu sacerdócio, vencera a sua vontade, mas, passada ela, viera, com o arrependimento da quebra do seu voto, a dor inqualificável de não poder confessar a sua paternidade.
Ele amou-me sempre, talvez me quisesse mais por causa das condições que envolviam o meu nascimento. Em público, olhava-me de soslaio, media as carícias, esforçava-se por fazê-las banais; em casa, porém, quando não havia testemunhas, beijava-me e afagava-me com transporte. Ele temia o murmúrio, temia dar-lhe força com atos ou palavras públicas; entretanto toda a redondeza quase seria capaz de atestar em papel selado a minha filiação...
Vinha o chá, nós ficávamos a tomá-lo e ao menor ruído minha mãe vinha do interior da casa para saber se meu pai queria alguma coisa. Acabado o chá, eu ainda ouvia “história” da tia Benedita, uma preta velha, antiga escrava do meu reverendo pai. Eram cândidas histórias da Europa, coisas delicadas de paixões de príncipes e pastoras formosas que a sua imaginação selvagem transformava ou enxertava com combates de gênios maus, com malefícios de feiticeiras, toda uma ronda de forças poderosas e inimigas da vida feliz dos homens. Tal fora a minha infância, que, nas dobras da saudade, aquela tarde carregada de cogitações vitais à minha vida, me vinha trazendo à memória com uma nitidez assombrosa. Cansado de olhar a rua e de pensar, desci ao pavimento térreo, à sala de jantar onde o Coronel Figueira e o Senhor Laje da Silva conversavam. Mal entrara, prazenteiramente, este exclamou: — Oh doutor!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)BARRETO, Lima. Recordações do Escrivão Isaías Caminha. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1865 . Acesso em: 8 maio 2026.