Por Coelho Neto (1898)
Foi resolvido que surgissem diante da ilha de Mombaça que o piloto perversamente affirmava ser em parte habitada de christãos. Levada por elle encaminhou-se a frota a uns baixos, duas leguas distantes da terra firme, por acaso ou por maldade vingativa do piloto. Quiz Deus, porém, que não soffressem maior damno os que andavam com o cruzeiro de Jesus nas velas e o seu nome nos corações. Foi a nau S. Raphael, de Paulo da Gama, que se encravou, rangendo, nos baixos perigosos, detendo-se as mais ao longe mas, com o favor da maré e dos ventos que tufaram as velas despegou-se a quilha safandose o navio com grande alegria de todos. Aos recifes foi dado o nome de S. Raphael e tambem a umas serras que fitavam na costa, muito embrenhadas e altivas. Foi a 7 de Abril que chegaram á vista da ilha de Mombaça onde jazia a cidade do mesmo nome que era uma aljama, sem nada de christã.
Certo de que havia n'aquella terra christandade, para entrar mais garboso, mandou Gama empavezar as naus e a maruja, com alvoroço, acudia ás amuradas, agarrava-se ás enxarcias, marinhando pelos mastros trepava ás vergas para estender a vista olhando a cidade que appareciacom aspecto mais vistoso do que as cabildas nas quaes apenas colmados avultavam, entre palmeiras e arvores de fronde basta.
Alli o casario alvejava ao sol e as mesmas hervas como que recebiam trato, e havia, á maneira de eidos, terrenos defendidos e forrados de relva muito verde sobre a qual cresciam arbustos em flor e arvores de sombra e fructo. Ainda as amarras rangiam descendo á areia as ancoras e já pelas praias, lisas e brancas, onde pequenos nús patinhavam folgando, surgiam mouros de ouro nos seus trajos de linho raiado, com turbante e adagas nas cinturas, axorcas de ouro nos braços e nos tornozêlos olhando e formando grupos. E, como os seguiam nos movimentos que operavam viram os da nau largar da terra uma zabra cheia de homens, todos de muito corpo com terçados e, alcançando a nau, foramse a ella querendo todos subir ao mesmo tempo, mas o capitão apenas permittio que entrassem quatro dos principaes ficando os outros a murmurar lançando olhares de despeito aos marinheiros.
O regulo, sabendo que alli chegára a frota, logo se poz em plano astuto de apoderar-se d'ella trucidando ou prendendo os portuguezes e, para ter entrada a bordo, fez chegar ao capitão um regalo de fructas e o seu annel, assegurando que alli tenam tudo quanto lhes fosse necessário desde que se aproximassem do porto.
O Gama respondeu com gentileza que, na manhã seguinte, levaria as naus para mais perto e despachou o embaixador com um ramo de coral, e, em significação de paz e de amizade, mandou com elle dois dos degradados para que vissem a terra e se n'ella havia christãos.
Desde o porto, com a sua agua banzeira e sordida, sobre a qual boiavam carniças e folhagens pôdres, ao terreno enlameado onde ferviam moscas, foram os degradados olhando a terra que tão formosa lhes parecera na distancia do mar, ao vivo esplendor do sol, entre a verdura viçosa do arvoredo.
Pelas viellas tortuosas, atravancadas de cães, apertava-se o casario acaçapado, com uma entrada baixa, profunda e sombria, entre grossos muros manchados de humidade tresuante. Mouros iam e vinham, uns quasi nús, miseraveis, descalços, d'uma cor fula, doentia, outros com albornozes listrados, com alparcas nos pés, com armas a luzirem na cinta e todos paravam para os ver passar e ficavam voltados gesticulando e fallando; as mesmas mulheres, com os seus gomis de barro á cabeça, detinham-se curiosas.
N’uma grande praça toda plantada de arvores havia um ajuntamento como de feira e bois immensos, de cornos negros, deitados na terra fôfa e calcinada rurnina vam mansamente. Era, sem duvida, um mercado e a troavam pregões e vozerio e gritos e, de longe em longe, atravez da algaravia, uma voz de animal subia longa triste e profunda. Creanças rebolcavam-se na herva entanguida, outras, em tremedaes, empastadas de lama, riam e saltavam jocundamente e, para um canto, na sombra, um camello do deserto, deitado, as pernas sob o corpo, os olhos semi-cerrados, remoía um feixe de hervas tenras e um negro, junto d'elle, sentado sobre os calcanhares, batia com uma vareta na corda tensa d'um arco, gemendo uma cantiga.
Em uma das estreitas viellas detiveram-se, com o embaixador, diante d'uma casa atarracada, muito branca, com dois degráos de pedra á entrada. Introduzidos, atravessando uma angusta passagem lobrega, deram n'uma sala que abria sobre um pateo, com muita luz e muito arôma, onde cantavam passaros e uma cabra, presa, berrava de instante a instante.
Alli dois mouros acobreados tomaram-nos com muita alegria levando-os a um recanto forrado de pannos raros viram um retabulo com o Espirito Santo, varias cruzes e rosarios que os da casa veneravam. Depois de haverem feito sua reza sairam com os mouros á sala onde lhes foi servido um um refresco de varias fructas, regalando-se todos como n'um ágape emquanto fóra, no pateo, á grande luz, a passarada contente concertava.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)COELHO NETO, Henrique. A descoberta da Índia. Rio de Janeiro: Laemmert, 1898. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43340 . Acesso em: 30 abr. 2026.