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#Romances#Literatura Brasileira

Numa e a Ninfa

Por Lima Barreto (1911)

— Todos sabem. O pai deixou-lhe dinheiro e o marido alguma coisa. O que ela quer é luxar... Não precisa... O que tem dá e sobra.

Os dois calaram-se e Numa ficou um instante parado, hesitando em despedir-se da mulher. Não achava nenhuma gravidade na promessa. Que podia ser? Trezentos ou quatrocentos mil-réis por mês. Adiantou-se para beijar a mulher, quando esta lhe perguntou de repente:

— Numa, vocês já votaram a pensão para a viúva daquele bombeiro que morreu num incêndio da Saúde?

— Que bombeiro?

— Homem, não sabes? O presidente pediu até em mensagem especial...

Não te lembras?

— Ah! É verdade!

— Então?

— Ainda não. A comissão ainda não deu parecer.

Beijaram-se e Numa saiu para a sessão da Câmara dos Deputados.

CAPÍTULO III

O general Manoel Forfaible almoçava cedo e logo procurava a sede da sua comissão. Presidia a comissão de inventário do material bélico inutilizado e avaliava do proveito provável de algumas peças pelas listas que os sargentos lhe enviavam. Era uma comissão técnica e os outros seus auxiliares tinham também conhecimentos sólidos de ciência e artes militares que aplicavam nas listas, a exemplo do chefe.

Sua jovem mulher empregava o ócio matrimonial fazendo visitas, correndo casa de modas, assistindo a sessões cinematográficas. Havia ente ambos uma efusiva simpatia. Não era bem marido e mulher; eram pai e filha. Mais do que a diferença de idade, cerca do dobro entre os dois, determinava esse aspecto de suas relações a diferença de temperamento. O general era bonachão, simplório, lento de espírito, já um tanto desmilitarizado; a mulher, porém, era viva, convencida dos bordados do marido e das prerrogativas que os dourados lhe davam.

Ela o via a cavalo passando revista às tropas, garboso, ereto na sela, com um olhar de batalha; ele se via sempre em chinelas, lendo os jornais na varanda da casa.

Desde muito que D. Ana Forfaible não visitava a sua amiga Mariquinha. Era terça-feira, dia morto para a rua do Ouvidor; os cinemas não tinham mudado de programa; ela vestiu-se e resolveu-se a ir ver a amiga.Certamente estava em casa, pensou ela; Mariquinha é caseira, tem filhos; demais, o marido ainda é tenente e não pode andar em passeios. Não tinha muito que esperar para melhorar, pois as coisas iam mudar. Mme. Forfaible desejava ardentemente a prosperidade do marido da sua amiga. Ele era engenheiro militar, tinha um bom curso, sabia bem matemática, não podia estar a lidar com soldados, a fazer serviço de quartel. O seu lugar era ocupar uma boa comissão, dessas que os paisanos têm, esses paisanos que não sabem nada....

Muito bem vestida, enluvada, fechou o rosto na sua importância, radiou a patente de seu marido e seguiu para a casa da amiga. Chegou.

— Não sabes — disse ela suspendendo a “toilette” - como tenho andado azafamada... Não te tenho podido visitar... Também tu não vais lá em casa?

— Não tenho podido, Anita; o Descartes anda só doente e ...

— Não ficou no colégio?

— Não. Aquele idiota do comandante mandou-o para casa... Se fosse filho de um coronel...

— Isso tudo vai mudar, Mariquinha. Tem paciência....

— Qual paciência, minha filha. Aquele colégio é assim mesmo. Já nos exames é o diabo. Perseguem o pequeno... Álvaro vai lá, fala, mas o que queres?

— São os paisanos?

— Qual paisano, minha filha! São os colegas mesmo do Álvaro...

— Vai melhor?

— Vai... lá está bom.

— E a Heloísa?

— Muito bem. Está no colégio. Não queres tomar café?

Foram para a sala e jantar. Sentando-se à mesa Mme. Forfaible descansou a bolsa, tirou as luvas, juntou tudo - lenço, luvas e carteira — e pôs do lado esquerdo. A dona da casa começou a colocar as xícaras; ia e vinha do guardalouça, para a mesa, conversando.

— Estou sem criada, Anita. Um inferno!

— As minhas também não param.

— Não há leis...

— Esses paisanos, esses deputados não servem para nada.

— Não há quem cuide disso. Ganham um dinheirão...

— Se fossem militares...

— Hão de acabar.

— Olha, queres saber de uma coisa: o Xisto não vai.

— Corre isso.

— Pois eu lhe digo que sim. Está tudo preparado... Bastos ainda não deu o sim, mas quem vai é o Bentes.

— Ouviste dizer isto?

— O Manoel não te disse nada?

— Nada. E o Álvaro?

— Álvaro não diz coisa com coisa, mas ouço as conversas deles... Quem vai mesmo é o Bentes... Quem fez a Republica não foram eles? Então fizeram a Republica para os outros? Não achas?

— Certamente. Não nos tem adiantado nada. Os paisanos tomaram os lugares, os bons, e nos deixaram os ossos. Uma ova!

— Vê tu o que ganha o Álvaro. É soldo de um oficial, de um engenheiro? Qualquer civil aí, que não sabe o que ele sabe, ganha contos de réis! Não tem lugar nenhum!... É um desaforo!

— Mas Bentes quer?

— Bentes quer, mas tem medo. Sabes bem que quem o faz querer não é ele, é o Gomes.

— Os militares sempre provam bem.

— E são honestos!

— O que era preciso, minha filha, era melhorar também o montepio.

— De tudo isso, eles vão tratar; e agora é que são elas!

— Se o “velho” não quiser — como há se der?

— Contra a força não há resistência, Anita. Sabes bem disso.

(continua...)

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