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#Biografias#Literatura Brasileira

Mano

Por Coelho Neto (1924)

- Bom...! - disse meneando tristemente com a cabeça. - Bom... Bom e nega-nos o pequeninoconsolo que lhe pedimos com tantas lágrimas. Não mo quer mostrar durante a vigília, mostre-mo durante o sono, num sonho.

Quando dormimos desprendemo-nos do corpo, a alma faz como um pássaro que se ala do ramo onde tem o ninho. Pois bem, no sono, por que não mo deixa ver enquanto durmo? Seria um sonho, um sonho feliz. Nem isso. Por que?

- Por que? Ai! de nós, aí! da vida se conseguíssemos desvendar o segredo da Morte. O azul é oazul da alma. Quando viajamos que fazemos nós no largo oceano - atravessamos a cortina diáfana, vencendo-a, deixando-a atrás? Não, porque ela sempre se nos opõe, ao longe. E por que a temos diante dos olhos sustamos a marcha? Não: prosseguimos com a certeza de topar em porto onde tomemos pé.

Ninguém se deixa ficar no oceano, à matroca - procura um rumo, norteia-se, toma um destino, rompe o azul. É preciso ter coragem e bússola para andar nos mares; é preciso ter crença e fé para levar a alma além da dúvida. Desesperos são temporais e é justamente nos temporais que se conhecem os mareantes.

Se, no furor da tormenta, com os ventos desencadeados e o mar grosso, a tripulação descorçoa e abandona o governo do navio, não serão, decerto, as vagas que o hão de salvar do soçobro. É preciso ter fé, e tu duvidas.

- Eu quisera ver, ter uma prova, por menor que fosse.

- Não as tens porque as buscas materialmente. No escuro não poderás achar o perdido; procuracom luz e a Luz, para pesquisas tais, e a fé. Espera, continua a esperar, espera sempre e um dia, talvez, quem sabe...!

Como pensas? Concentrando-te, isto é: encerrando-te em ti mesma. É em nos mesmos que encontramos os nossos mortos. Eles vêm a nos, como a luz; nós não podemos ir a eles. Achas que Deus não é bom porque cerra, em impenetrável sigilo, o segredo da Morte. Engano teu. Que seria a vida, senão horrenda tortura, se tal mistério não existisse? Fosse o Além o Nada, o inferno ou o Paraíso... Se fosse o Nada, todos viveriam a lamentar o perecimento, a destruição definitiva; se fosse o inferno, que dor saberem todos que os aguardava o tormento; se fosse o Paraíso, não haveria felicidade na terra porque, comparando a via contingente e sofredora com a delicia da existência paradisíaca, tudo fariam para desertar este mundo precário, com ânsia do outro, de eternidade feliz. E os berços, que se aureolam de sorrisos, cercar-se-iam de lamentações, porque viver seria tanto como penar.

Achas que Deus não é bom, porque não consente que o vejas. O nosso egoísmo é que nos agrava o sofrimento. Tu, em verdade, não choras o filho que deixou de viver, que está livre de todos os males que nos torturam: choras o filho que perdeste, o bem que te foi levado, o amor que te falta. Choras sobre ti mesma e julgas chorar sobre o seu túmulo.

- E isto basta-te? consola-te?

- Sim, basta-me, consola-me como me basta, para consolação de tudo quanto tenho sofrido, acerteza, em que estou, de que Deus existe. E se tu invocas o espírito do morto é porque estás certas de que ele não desapareceu com a morte, não se desfez como o corpo e agora, mais do que quando convivia conosco, triunfal, puro e eterno, tão puro como o teu amor, em que ele se encarnou, e eterno, tão puro como a Essência a que regressou.

- E achas que faço mal em trazê-lo assim enfeitado de flores?

- Mal? Por que mal? É um culto e todos os cultos, quando neles há sentimento, como nesse emque pões toda a alma, são belos e dignos de respeito.

Falo-te assim para que não chores tanto. Flores são carinhos; lágrimas são tormentos e, se ainda o chamas de filho e o queres venturoso, porque o hás de perturbar, entristece.

SOMBRAS

Que resulta da nossa aliança com a luz? Sombra, nada mais.

Alegria é luz e assim como na maior claridade as sombras tornam-se mais negras, mais a tristeza se agrava se dela, em volta, a alegria exulta,

O silêncio é alivio: calma. Na quietude em que me refugio chego a não acreditar na tua morte porque te sinto em mim, comigo, como se vivo foras.

À noite as sombras não aparecem; todas se recolhem aos corpos que as expuseram. De dia, porém, destacam-se, prolongam-se com a terra.

No apogeu meridiano, não suportando a claridade fúlgida, acolhem-se ao de que saíram, como se concentra na dor um coração ferido se, em torno dele, há expansões de vivida alegria. Felizmente, porém, o sol pouco se demora no zênite e logo que declina projetam-se, de novo, as sombras, até que todas se fundem em uma única, que é a noite.

Isolo-me, não porque aborreça a vida e inveje a felicidade alheia, mas para forrar-me no alvoroço da alegria.

Que o coração adormeça tranqüilamente, no silêncio, e sonhe, como quem dorme.

Sonhando, anda que em vigília, - porque recordar é sonhar de olhos abertos - vê o que foi, reconstitui, um a um, os dias venturosos até aquele que ficou eterno na memória, como jazem imóveis sobre as horas que não soam mais os ponteiros de um relógio cuja máquina parou.

O PIANO

(continua...)

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