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#Contos#Literatura Brasileira

Uma Tragédia no Amazonas

Por Raul Pompéia (1880)

— Oh! Sois um sacerdote e não contais a Providência, que deve estar do meu lado?!

— Sim,... mas quero ir. Quero morrer contigo, ou contigo me salvar.

"Partamos! Não há tempo a perder."

— Que! bradou Eustáquio, padre Jorge, ficai!

Qual, amigo! Que tenho a recear? A morte? Ora! A morte já não me pode causar dano. Deste meu lugar eu já a avisto. Que importa que ela me alcance aqui ou ali?... Questão de lugar.

— Não! não haveis de ir!

— Hei de ir certamente, replicou o padre com firmeza.

— Padre Jorge, sejamos razoáveis. Lembrai-vos que há almas por quem tendes de responder a Deus.

"E se morrerdes..."

— Outros me hão de substituir com muito mais aptidão para o meu mister. Além disso, a tua e a dos teus não serão dessas almas por quem sou responsável? Não tenho eu até o dever de estar ao vosso lado pronto a confortar-vos em vosso último momento, se ele chegar?

O ex-subdelegado viu que era impotente diante da vontade inabalável daquele velho, curvou-se e beijou as costas da mão rugosa e magra que segurava nas suas.

— Bem, disse comovido, sois o mais bravo dos sacerdotes e o mais dedicado dos amigos, vinde! Iremos juntos, e morreremos juntos, se for da divina vontade.

E os dois se abraçaram.

Os paraenses, de pé, assistiam, calmos, mas enternecidos, as peripécias belas dessa cena de amizade.

Passados alguns momentos, o velho sacerdote dirigiu-se à mesa e fechou o alfarrábio. Aos pés do seu pobre leito havia um crucifixo de madeira negra. Beijou-o respeitosamente e veio reunir-se aos companheiros de Eustáquio.

Deixaram todos a casinha do padre, que talvez a ela não volvesse.

Ainda os lampejos alvacentos da madrugada não se irradiavam pelo nascente. Era noute ainda.

Antes de sair da povoação, um grupo de trabalhadores passou por diante de Eustáquio e dos seus, saudando respeitosamente com os chapéus ao padre Jorge e ao esposo de Branca. Eram quatro rústicos, em trajos grosseiros, que levavam ao ombro instrumentos de lavoura.

O padre Jorge aconselhou a Eustáquio que engajasse mais aqueles homens. Eustáquio não trepidou. Tratou-se, sem regateio, a recompensa, seguindo os exploradores com o novo reforço pela picada acima.

Avizinhava-se o roseiral de Eustáquio.

A lua, vermelha como a lanterna sangrenta de algum gemo das trevas, avançava tristonha pelos céus além. A atmosfera, tristemente nublada, mal coava uma frouxa claridade que dava a tudo uma feição fantástica. À base da montanha que parecia envolta em um manto de gaze cinzenta, repousava silenciosa a casa branca do ex-subdelegado como uma tímida pomba abrigada nas fendas de algum penhasco.

Por sobre ela, em certos lugares escalvados da encosta da montanha, escorregavam filetes d'água brilhando como prata.

Este quadro lúgubre veio encher de ligeiro pavor o ânimo atribulado de Eustáquio.

A lâmpada das noutes parecia-lhe um presságio de sangue, e ao entrar em sua habitação, sentiu apertar-se-lhe o coração.

Nenhuma novidade havia, felizmente; e a ansiedade com que todos esperavam pela volta do ex-subdelegado foi traduzida pelo acolhimento que teve ele.

Logo que o dia tornou-se claro, a cozinha de Branca forneceu um almoço restaurador, em que todos tomaram parte.

Foram carregadas cuidadosamente as armas de fogo e afiadas as de corte.

Todos estavam prontos.

Os oito engajados estavam postados, de espaço a espaço, por toda a extensão da paliçada exterior. Ruperto com uma ótima espingarda de dous canos, passeava sossegadamente no roseiral, preparado para socorrer as sentinelas de fora. E finalmente Eustáquio com sua família e o padre Jorge estavam dentro da habitação, transformada em casamata, tendo a sua disposição quatro pistolas e dous rewolvers.

Reinava tranqüilidade, porque a casa era fortemente defendida, mas ninguém conversava.

Tudo estava pronto. Só se esperava o ataque.

CAPÍTULO XI

UMA FAZENDOLA

A natureza no norte do Brasil e, em geral, nessa zona ardente que afronta os dardos de fogo, caídos verticalmente de um sol intertropical, é esplêndida.

Por ai corre o Amazonas. As suas náiades e as dos seus numerosos tributários, deslizando serenas, beijam com indolência os ramos floridos das seculares árvores que se debruçam sobre elas. Tocando apenas às duas margens deixam-nas impregnadas de fertilidade; e realizam os belos sonhos de Orelíana, enchendo-as de riquezas que só esperam o braço diligente e ativo para se transformarem em ouro.

Entretanto só rasgam-nas esses rios, correndo-as lentamente para tirarem por único fruto os belos madeiros que são vomitados no Oceano, e todas essas magnificências naturais são contempladas somente pelos olhos luminosos da onça, rainha dessas matas, ou pelo selvagem feroz e altivo, que as despreza.

A uma sossegada baía cavada na margem setentrional do Amazonas encostara-se uma pesada embarcação.

(continua...)

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