Por Raul Pompéia (1882)
Contra esta suposição protestavam, irritados, os lacaios do palácio. Ninguém, todavia, deixava-se levar pelos seus argumentos em defesa da classe, os quais se reduziam todos mais ou menos à história da corda explicada por Inácio, o descobridor do crime.
— Nada! Nada! — diziam. — Como é que um ladrão da rua poderia saber que o lacaio que saiu do palácio do marquês de ***, depois da reunião, levava uma riquíssima porção de jóias? E, caso soubesse, por que não lhe havia tomado o cofre, aproveitando a falta de polícia de qualquer esquina sombria.
CAPÍTULO VIII
A festa do marquês de *** terminara cedo.
Às onze horas, o pequeno número de pessoas, que tinham concorrido a ela, começava a retirar-se.
Não tinha sido verdadeiramente um baile. Fora um pretexto para algumas horas de alegre palestra.
Os vizinhos, acostumados àquelas breves reuniões do marquês, não admiraram de ver cessarem antes da meia-noite os rumores festivos das salas iluminadas do fidalgo.
Os duques de Bragantina não haviam faltado ao especial convite que lhes fora dirigido. Mais ou menos às oito horas, apareceu na porta da sala principal do marquês o senhor de Santo Cristo apertado na mais rigorosa etiqueta. Ostentava no largo peito algumas das inúmeras condecorações de que se fizera merecedor pelos auxílios pecuniários que largamente distribuía.
Pelo braço, trazia a duquesa, séria, mas ricamente vestida e enfeitada de jóias de fabuloso valor. Trazia um colar de diamantes, cheio de enormes pedras de uma pureza incomparável, que constituía o mais precioso legado da fortuna dos primeiros antepassados da duquesa.
Entre os outros adereços, havia um anel pertencente à duquesa d’Etu, que se achava por um motivo qualquer na caixa de jóias da sra. de Bragantina e fora por ela casualmente trazido.
Começou a festa. As moças dançaram. Cantou-se. Houve excelente música e melhor palestra.
No fim de tudo, antes de se recolherem aos aposentos que lhes eram destinados, o duque e a duquesa despiram-se das jóias que traziam.
A duquesa condicionou-as cuidadosamente em um bonito cofre lustrosamente envernizado que o marquês forneceu.
Como o duque de Bragantina tencionava partir com a esposa no dia seguinte, diretamente para Anatópolis, resolveu mandar as jóias para o palácio.
Um criado de sua confiança, que o acompanhara à festa do marquês, foi incumbido de as levar. O homem tomou o cofre, montou o cavalo e, às 11 horas e meia da noite, entrava no palácio de Santo Cristo.
Na quinta, já todos dormiam àquela hora. Apenas uns criados conversavam à porta do palácio. O lacaio pediu-lhes que vigiassem o cavalo, enquanto ia guardar umas coisas, e entrou no edifício.
Foi até a sala grande do lance esquerdo da casa.
— Vou fazer um grande favor, deixa estar — murmurou ele.
E com o cofre que lhe havia sido confiado, dirigiu-se para o armário de espelhos, que se via na sala.
Na fechadura do armário via-se uma pequena chave. O criado deu-lhe volta.
Um dos espelhos deslocou-se.
— À direita — murmurou o lacaio —, à direita... segundo o trato...
E colocou no canto direito da primeira prateleira do armário o preciosíssimo cofre...
— Agora, corre por conta dele — balbuciou ainda... — A chave eu levo... direi que não vi o particular, que é quem deve vigiar estas coisas...
Assim falando, o lacaio trancou a porta e guardou a chave. Apagou em seguida o gás e deixou a sala.
Ao sair do palácio, enfiava o pé no estribo do cavalo em que devia voltar para a casa do marquês, despediu-se dos homens que estavam à porta:
— Podem ir dormir... o sr. duque não volta hoje; vai amanhã para Anatópolis. Boa-noite.
Os criados seguiram o conselho do companheiro e, quando o viram desaparecer no escuro do parque, recolheram-se e trancaram as sólidas portas do palácio...
Uma hora depois, só duas pessoas andavam acordadas por esses lugares:
Manuel de Pavia e Inácio.
No dia imediato à noite em que o leitor viu empenhados na sua empresa criminosa os dois homens de serviço do duque de Bragantina, foi Inácio a primeira pessoa que entrou na grande sala do armário.
A claridade pálida das cinco horas invadia o salão e iluminava modestamente as paredes. Estavam três janelas abertas. Inácio corre para fora, gritando:
— Três janelas abertas! — exclamaram espantados os dois criados.
— Não é isso só!... Vejam aqui o armário arrombado... furtaram alguma coisa...
— Roubaram! Roubaram!
Mais outros criados se apresentaram.
— É preciso acordar o mordomo — dizia um.
— É preciso chamar o particular do duque que passou a noite fora do palácio.
— É preciso! — afirmava fortemente Inácio. — É preciso saber-se o que roubaram e quem foi o ladrão!
— Vamos acordar o mordomo. — Chamem o particular.
Em poucos instantes, apresentou-se o mordomo assustadíssimo, metido num enxovalhado robe de chambre de grandes ramagens cor de rapé, com os olhos cerrados ainda pelo chumbo da soneira da manhã e a cara amarrotada de quem não se lavou ainda.
O mordomo levantou-se para acudir ao chamado insistente de um criado, que o fora prevenir de que tinham entrado ladrões no palácio.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)POMPÉIA, Raul. As joias da coroa. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17439 . Acesso em: 6 abr. 2026.