Por Euclides da Cunha (1902)
A expedição, em pleno território rebelde, insulara-se sem a mais ligeira linha estratégica vinculando-a à base de operações em Monte Santo, a não ser que se considerasse tal a perigosa vereda do Rosário, repleta de emboscadas. E como o comboio reconquistado chegara reduzidíssimo, ficando mais de metade das cargas em poder dos sertanejos, ou inutilizada, a tropa perdera munições de inestimável valor na emergência, e ao mesmo tempo os aparelhara com cerca de 450.000 cartuchos, o bastante para prolongarem indefinidamente a resistência. Municiara-os. Completara o destino singular da expedição anterior que lhes dera espingardas. Estas estrondavam agora, a cavaleiro do acampamento. Os vencidos restiuíam daquele modo as balas, estadeando provocações ferozes, aos vitoriosos tontos, que não lhes replicavam.
A noite descera sem que se atreguasse a luta; sem o mais curto armistício, permitindo que se corrigissem as fileiras. Um luar fulgurante desvendava-as às pontarias dos jagunços; e estes, batendo-as calculadamente em tiros longamente pausados, revelavam-lhes a vigilância temerosa, em torno.
Um ou outro soldado, indisciplinadamente, revidava, disparando à toa, a arma, para os ares. Os demais, sucumbidos de fadigas, caídos sobre os fardos por ali esparsos a esmo, estirados sobre o chão duro, quedavam-se inúteis, abraçando as espingardas...
Começo de uma batalha crônica
A noite de 28 de junho iniciara uma batalha crônica.
Daquela data ao termo da campanha a tropa iria viver em permanente alarma.
Começou desde logo um regímen deplorável de torturas. Ao amanhecer de 29 verificaram-se insuficientes as munições de boca, para a ração completa das praças da 1.ª coluna, já abatidas por uma semana de alimentação reduzida.
A 2.ª, embora mais bem avitualhada, não tinha por sua vez garantido o sustento por três dias, depois de o repartir com a outra. De sorte que logo no começo desta fase excepcional da luta se lançou mão dos últimos recursos, sendo naquele dia abatidos os bois mansos, que até lá tinham conduzido o pesado canhão 32. Ao mesmo tempo antolhava-se uma tarefa penosíssima: fazer daquele acervo de homens e bagagens um exército; ordenar os batalhões dissolvidos; reconstituir as brigadas; curar centenares de feridos; enterrar os mortos e desatravancar a área reduzida dos fardos e cargueiros, postos por toda a banda. Estes trabalhos indispensáveis realizavam-se, porém, sem método, atumultuadamente, sem a diretriz de uma vontade firme. A colaboração justificável dos comandantes de corpos, dos próprios subalternos, surgia espontânea, de todos os lados, no sugerir sem número de medidas urgentes. De modo que, a breve trecho, toda aquela gente, movendo-se às encontroadas, em todos os sentidos; improvisando trincheiras; agrupando-se ao acaso em simulacros de formatura; arrastando fardos e cadáveres; retirando os muares, cujas patas entaloadas eram ameaça permanente aos feridos que lhes rastejavam aos pés, não teve esforços convergentes e úteis.
Não a dominava, todavia, inteiramente, a desesperança.
Volvera-lhe com o amanhecer o valor; e, a despeito de tantos casos expressivos, não avaliara ainda bem a pervicácia feroz dos sertanejos. De sorte que nos espíritos ressurgiu o pensamento consolador de próximo desenlace, ante um bombardeio vigoroso que propiciavam as vantajosas posições da artilharia, emparcada a cavaleiro do arraial. Punha-se de manifesto que um vilarejo aberto do sertão não suportasse por muitas horas as balas mergulhantes de dezenove canhões modernos.
CANHONEIO. RÉPLICA DOS JAGUNÇOS
Mas o primeiro tiro partiu e bateu em Canudos como um calhau numa colmeia. O acampamento até àquele momento em relativa calma foi, como na véspera, improvisamente varrido de descargas; e, como na véspera, os combatentes compreenderam quase impossível a réplica em tiros divergentes, dispartindo pelo círculo amplíssimo do ataque. Além disto, encafurnados numa dobra de morro, atirando por elevação e sem alvo, as nossas descargas sobre inócuas implicavam estéril malbaratar das munições escassas. Por outro lado, o efeito do canhoneio se patenteou francamente nulo. As granadas, explodindo dentro das casas, perfuravam-lhes as paredes e os tetos e como que se amorteciam entre os frágeis anteparos de argila — estourando sem ampliarem o raio dos estragos, caindo muitas vezes intactas sem arrebentarem as espoletas. Por isso o alvo predileto foi, mais uma vez, a igreja nova, bojando no casario baixo, como um baluarte imponente. Ali se alinhavam os jagunços — por detrás das cimalhas das paredes mestras, engrimpados nas torres ou mais abaixo nas janelas abertas em ogivas, ou ao rés-do-chão sobre o embasamento cortado de respiradouros, estreitos à semelhança de troneiras.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CUNHA, Euclides da. Os Sertões. 1902. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16626. Acesso em: 10 jun. 2026.