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#Ensaios#Literatura Brasileira

Os Sertões

Por Euclides da Cunha (1902)

"Toda a primeira coluna estava aprisionada. Por mais estranho que se afigure o caso não havia aos triunfadores um meio de sair da posição que tinham conquistado. Confessa-o o general-em-chefe: "Atacado o comboio e interdita a passagem de qualquer soldado, como demonstraram os casos precedentes, tive de mandar uma força de cavalaria ao general Cláudio do Amaral Savaget, na intenção de receber socorro de munições, o que ainda uma vez contrariou o meu pensamento porque o piquete não pôde atravessar a linha de fogo do inimigo que tiroteava no flanco direito." Deste modo, batida no flanco direito, de onde tornara repelido o piquete de cavalaria; batida à retaguarda, que dois auxiliares não conseguiram romper; batida no flanco esquerdo, onde se sacrificara gloriosamente e estacara a 3.ª Brigada; e batida pela frente onde a artilharia, dizimada, perdera quase toda a oficialidade e emudecera, a expedição estava completamente suplantada pelo inimigo.

Restava-lhe um recurso sobremaneira problemático e arriscadíssimo: saltar fora daquele vale sinistro da Favela, que era como uma vala comum imensa, a ponta de baionetas e a golpes de espadas.

Fez-se, porém, uma última tentativa. Um emissário seguiu furtivamente, insinuando-se pelas caatingas, em busca da 2.ª coluna, que estacionara menos de meia légua, ao norte...

CAPÍTULO III

COLUNA SAVAGET

A tropa do general Cláudio do Amaral Savaget partira de Aracaju. Fizera alto nas cercanias de Canudos, depois de uma marcha de setenta léguas. Viera pelo interior de Sergipe em brigadas isoladas até Jeremoabo, onde se organizara em 8 de junho, prosseguindo a 16, unida para o objetivo das operações.

Forte de 2.350 homens, incluídas as guarnições de dois Krupps ligeiros, caminhara passo folgado e firme, para o que contribuíra dispositivo mais bem composto para as circunstâncias.

Aquele general, sem avocar a si, inteira e rígida, uma autoridade, que sob tal forma seria contraproducente, repartira-a, sem deslize da inteireza militar, com os seus três auxiliares imediatos, coronéis Carlos Maria da Silva Teles, Julião Augusto da Serra Martins e Donaciano de Araújo Pantoja, comandantes da 4.ª , 5.ª e 6.ª Brigadas. E estes realizaram até às primeiras casas do arraial uma marcha que se destaca das demais.

Não havia instruções prescritas. Não se ideara justapor ao áspero teatro da guerra a esquadria das formaturas, ou a retitude de planos preconcebidos. A campanha, compreenderam-na como a deviam compreender: imprópria a opulências de teorias guerreiras exercitadas através de um formalismo compacto; e girando toda em tática estreita e selvagem, feita de deliberações de momento.

Pela primeira vez os lutadores suportavam-na numa atitude compatível: subdivididos em brigadas autônomas, para se não dispersarem; e móveis bastantes, para se modelarem à rapidez máxima das manobras ou movimentos que, subtraindo-as a surpresas, as preparassem a aguardar a única coisa que na guerra aventurosa e sem regras lhes era dado esperar — o inesperado. As três brigadas, ágeis, elásticas e firmes, abastecidas de comboios parciais, que lhes não travavam os movimentos: feitas para desenvolverem a envergadura à ginástica das guerrilhas e às asperezas da terra, repartindo a massa da divisão, substituíam-lhe a importância do número pela da velocidade e vigor das evoluções aptas a se realizarem nas mais circunscritas áreas de combate, sem os entraves dos elefantes de Pirro de uma artilharia imponente e imprestável.

Viera na frente a 4 a composta dos 12.° e 31.° Batalhões comandados pelo tenente-coronel Sucupira de Alencar Araripe e major João Pacheco de Assis.

CARLOS TELES

Dirigia-se o coronel Carlos Teles — a mais inteiriça organização militar do nosso Exército nos últimos tempos.

Perfeito espécimen desses extraordinários lidadores riograndenses — bravos, joviais e fortes — era como eles feito pelo molde de Andrade Neves, um chefe e um soldado: arrojado e refletido, impávido e prudente, misto de arremessos temerários e bravura tranqüila; não desadorando o brigar ao lado da praça de pré no mais aceso dos recontros, mas depois de haver planeado friamente a manobra.

A campanha federalista do Sul dera-lhe invejável auréola. A sua figura de campeador — porte dominador e alto, envergadura titânica, olhar desassombrado e leal — culminara-lhe o episódio mais heróico, o cerco de Bagé.

A campanha de Canudos ia ampliar-lhe o renome.

Compreendeu-a como poucos. Tinha a intuição guerreira dos gaúchos.

De posse de sua brigada e, abalando com ela, isolado, para Simão Dias, onde chegou a 4 de maio, modelara-a em pequeno corpo de exército adaptando-a às exigências da luta.

(continua...)

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