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#Sermões#Retórica

Sermão da Primeira Dominga da Quaresma

Por Padre Antônio Vieira (1655)

84. Cristãos, Deus nos livre de pôr a salvação de nossa alma em dúvida, ainda que seja pelo preço de todo o mundo e de mil mundos. O que se põe em dúvida, pode ser e não pode ser. E se for? Se a dúvida inclinar para a pior parte, se eu me não salvar e me condenar, como se condenaram tantos que lhe fizeram esta mesma conta; será bem que fique a alma nestas contingências? Oh! tristes almas as nossas, que não sei que nas têm feito, que tanto mal lhes queremos! Por certo, que não nos havemos nós assim nas temporalidades. O negócio em que vos vai a vida, ou a fazenda, ou a honra, ou o gosto, contentais-vos com o deixar nessas dúvidas? Não buscais sempre a mais segura? Pois só a Deus e à ventura hão de ser para a triste alma? Vede como se queixava Cristo desta semrazão: Diviserunt sibi vestimenta mea, et super vestem meam miserirut sortem (Mt. 27,35): As minhas vestiduras exteriores, dividiram-nas para si, e a minha túnica interior, lançaram-na a sortes. – Os vestidos exteriores de Cristo, dividiram-nos entre si os soldados em partes iguais; a túnica interior, jogaram-na a ver quem a levava inteira. Que é esta túnica interior, e que vestiduras exteriores são estas que os homens receberam de Deus? As vestiduras exteriores são os bens temporais, a túnica interior é a alma. Vede agora com quanta razão se queixa Cristo: Diviserunt sibi vestimenta mea: as vestiduras exteriores, os bens temporais estimam-nos os homens tanto que os não querem pôr na dúvida de uma sorte: dividem-nos com grande tento, reparando em um fio, e cada um segura a sua parte; Et super vestem meam miserunt sortem: porém a túnica interior, a alma, fazem tão pouco caso dela os homens, que a lançam a sortes e à ventura, ao tombo de um dado. Atrevemo-nos a estar eternamente no inferno? Para quando guardamos os nossos juízos? Para quando guardamos os nossos entendimentos? Por que cuidais que foram prudentes as cinco virgens do Evangelho? Por que eram muito entendidas? Por que falavam com grande discrição? Não. Porque quando as companheiras lhes pediram do óleo para acompanhar o esposo às bodas, elas responderam: Ne forte non sufficiat nobis, et vobis (Mt. 24, 9): Não, amigas, porque não sabemos se nos bastará o que temos. – Pôr em dúvida a entrada do céu, pôr em dúvida a salvação da alma, nem por amor das amigas, nem por amor das bodas, nem por amor do esposo.

§VII

É tão grande o valor das almas por si mesmas, que mesmo quando condenadas, como a de Judas, deu Deus por bem empregado nelas o preço infinito de seu sangue. Que nos fizeram as nossas almas para lhes querermos tão mal? Tomemos meia hora por dia para tratar de nossa alma. Por que não haverá também uma irmandade para a salvação das almas que se perdem? Proposta de Cristo ao Reino de Portugal.

85. Não digo eu pôr a salvação da alma em dúvida. Ainda que algum de nós soubera de certo, e tivera revelação que a sua alma se não havia de salvar, só por ser alma, a não havia de dar por nenhum preço do mundo. Ouvi uma ponderação que me faz tremer. É de fé que o Filho de Deus morreu por todos os homens. Assim o definiu Inocêncio Décimo em nossos dias, contra o erro dos jansenistas, e assim o diz expressamente S. Paulo em dois lugares de suas epístolas: na segunda ad Chorinthios, capítulo cinco: Christus pro omnibus mortuus est;24 e na primeira ad Thimotheum, capítulo dois: Qui dedit redemptionem semetipsum pro omnibus.25 Todos os homens quantos há, e houve, e há de haver no mundo, ou são predestinados que se hão de salvar, ou são precitos que se hão de perder. Que Cristo morresse pelas almas dos predestinados, bem está: são almas que se hão de salvar, e que hão de ver, e gozar, e amar a Deus por toda a eternidade; mas morrer Cristo, e dar o preço infinito de seu sangue também pelas almas dos precitos? Sim. Morreu pelas almas dos predestinados, porque são almas que se hão de salvar; e morreu também pelas almas dos precitos, porque, ainda que se não hão de salvar, são almas. Nos predestinados, morreu Cristo pela salvação das almas; nos precitos, morreu pelas almas sem salvação, porque é tão grande o valor das almas por si mesmas, ainda sem o respeito de se haverem de salvar, que deu Deus por bem empregado ou por bem perdido nelas o preço infinito de seu sangue. Grande exemplo em uma alma particular.

(continua...)

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